Primeiro de tudo, gostaria de dizer que considero este meu espaço no PortalGHQ mais um bate-papo informal com dados 99% seguros do que qualquer outra coisa. Não me acho o dono da verdade, embora conheça gente que, se pudesse, ia lá comprar onde a vendessem. Assim, caso alguém tenha informações melhores que as que seguem, por favor, não se acanhe em compartilhar.
Dito o acima, vamos prosseguir.
O ano de 2011 talvez tenha batido um recorde de filmes baseados em quadrinhos. Só de super-heróis tivemos quatro (X-Men – Primeira Classe, O Poderoso Thor, Capitão América – O Primeiro Vingador e Lanterna Verde), um cômico de origem europeia (Os Smurfs) e um de ficção científica (Cowboys & Aliens). Seis no total. Se considerarmos lançamentos no Brasil e não ano de produção, ainda dá para colocar na lista Dylan Dog e as Criaturas da Noite.
No Brasil, o mais perto que se chegou de uma HQ virar filme foi com o romance O Cheiro do Ralo, do quadrinista Lourenço Mutarelli. Aguardemos quando começarem as filmagens de Mesmo Delivery, de Rafael Grampá. O autor já revelou, via twitter, que há negociações em andamento.
Essa situação me faz pensar nas ótimas oportunidades que perdem certos cineastas brasileiros, tão viciados em mostrar o que eles supõem como “realidade” – e olha aí os donos da verdade outra vez. Se aparecer algum candidato a fim de fazer cinema baseado em quadrinhos nacionais, contribuirei com três sugestões:
1) A Garra Cinzenta, de Francisco Armon (história) e Renato Silva (desenhos). Publicada pela primeira vez em capítulos pelo jornal paulistano A Gazeta, de 1937 a 1939, é uma aventura que mescla elementos de policial, terror e ficção científica. Grande sucesso na época, saiu também no México, na França e na Bélgica. A trama não se passa no Brasil, e sim em Nova York. O inspetor Higgins e seu parceiro Miller investigam um assassino que sempre deixa na cena do crime o desenho de uma mão com garras, daí seu codinome “Garra Cinzenta”. A visível influência de quadrinhos made in USA, como o X-9 de Alex Raymond e Dash Hammett, não tira o brilho dessa obra que, com algumas adaptações para a telona, tem tudo para repetir o sucesso que foi em sua época, tanto aqui como lá fora. A Garra Cinzenta teve uma republicação parcial em 1975, pelo Almanaque do Gibi Nostalgia, da RGE (hoje editora Globo), saiu sob a forma de fanzine nos anos 90 e em 2011 pela Conrad.
2) Destino Oeste, editado em 2005 pela Tanta Tinta, é um álbum em formato europeu produzido por Gabriel Francisco de Mattos (argumento) e Ricardo Leite (ilustrações). Traz duas histórias passadas em Mato Grosso, terra dos dois autores (embora mineiro de nascença, Gabriel Mattos é cuiabano de coração). A primeira, Janeiro 1927, conta como um
militar um tanto maduro e rude decide encarar uma batalha contra a Coluna Prestes para mostrar sua bravura a uma jovem por quem se apaixonara.
A segunda, Asas, tem como protagonista ninguém menos que Saint Exupéry. O autor de O Pequeno Príncipe, sob o patrocínio secreto de Hergé (ele mesmo!), participa de um torneio de aviação. Acaba caindo em Santa Isabela, interior do Mato Grosso, e travando conhecimento com elementos que o inspirariam, depois, à concepção de seu livro mais famoso. Uma obra autoral com um quê de poesia. Talvez não fizesse “aquele” sucesso, mas tem tudo para se tornar um clássico instantâneo.
3) O Entrincheirado Hans Ribbentrop. O trabalho de Luís de Abreu (roteiro) e José Duval (arte) não teve a apreciação merecida quando publicado pela Editora Book, em 1991. Talvez por andar na contramão das tendências da época (ressurreição da onda de HQs europeias, os supercoloridos heróis da Image ou os quadrinhos corrosivos de Angeli, Laerte, Glauco, Fernando Gonsáles e cia.). O traço de José Duval lembra os da escola franco-belga. Alternando entre a década de oitenta e a Segunda Guerra Mundial, os autores contam a história do soldado Luderitz que, casualmente, descobre o dossiê de um certo Hans Ribbentrop, o cavador de trincheiras mais ingênuo, confuso e imbecil da Segunda Guerra Mundial. Vários personagens revelam seu passado em comum com o militar gordo e atrapalhado: o avô de Luderitz; um judeu especialista em fugas e atentados anti-nazistas; um obcecado agente da Gestapo.
O humor da narrativa alterna momentos de sutileza com pastelão. Caso feita a adaptação para o cinema, esta seria muito bem-vinda nos formatos de animação tradicional, animação 3D ou com atores de verdade. Mesmo sem se revelarem sucessos incríveis, todas essas histórias ou pelo menos uma delas, já serviriam para quebrar o marasmo e a mesmice de determinados filmes nacionais, cujos temas já conhecemos e não serei eu a dar aos meus leitores o desprazer de listá-los.
Giorgio Cappelli trabalhou com produção de cinema entre 1986 e 1993. Seu cineasta brasileiro favorito é Carlos Saldanha, responsável por Robôs, Rio e a série A Era do Gelo.













Onde tem prá vender estes quadrinhos Destino Oeste?
Este “O Entrincheirado Hans Ribbentrop” também gostaria de ler. Onde encontro?
Tem mais alguma revista com estes autores nacionais?
Cowboys & Aliens a graphic Novel ,não foi desenhada por Brasileiros?
Olá, Fagundes!
Destino Oeste, tenho dois exemplares à venda: http://ghq.com.br/destino-oeste/
O Entrincheirado Hans Ribbentrop, acredito que deve ser necessário recorrer aos sebos ou ao Mercado Livre.
E sim, a HQ Cowboys & Aliens foi desenhada por Dennis Calero e Luciano Lima.
Olá, Fagundes.
Falei com o desenhista de “Destino Oeste” sobre seu interesse na obra. Em todo caso, você pode perturbá-lo no Facebook: procure Ric Milk e diga que fui eu quem autorizei… Rê, rê, rê.
“O Entrincheirado Hans Ribbentrop” é um pouco mais difícil. Tente no site “Estante Virtual” ou senão no “Mercado Livre”, “Submarino” ou nos sebos.
O Ric Milk tem uma produção razoável, tendo participado até das homenagens ao Mauricio de Sousa. Já o Abreu e o Duval, até onde lembro, fizeram uma participação num número da Chiclete com Banana ou Circo. Não sei qual dessa revistas, mas lembro que era uma com cavaleiros medievais. Infelizmente essa dupla pouco produziu em termos de quadrinhos, e nós todos saímos perdendo.
“Cowboys & Aliens” foi desenhada e arte-finalizada por brasileiros. O roteiro é Made in USA. Mais informações, procure o Silvio Spotti no Facebook e ele terá muito prazer em recebê-lo.
Abrações!
particularmente não gostei das ilustrações de Cowboys & Aliens, sei lá talvez por causa da artee final e etc.
A Garra Cinzenta e o Hans Ribbentrop eu conheço. Este Destino oeste, é primeira vez que escuto alguém falar.
Tentei pesquisar e não encontrei em lugar nenhum da internet.
Mas não estavam fazendo filme da Aline? Acho que muita gente não sabe que o seriado Aline da TV é inspirado em quadrinhos.
Você pesquisou na internet toda e estando aqui não o fez: http://ghq.com.br/destino-oeste/
Sobre o filme estreado pela personagem do Adão, ouvi rumores, mas nada concreto.
Oi, Karine!
Você também pode procurar o Ric Milk no Facebook e conversar com ele sobre a obra.
Não estava sabendo do filme da Aline. Na verdade, não aprecio o trabalho do Adão Iturrusgarai. Além da Aline, outros quadrinhos que foram para a TV são A Turma do Pererê do Ziraldo e a Radical Chic do Miguel Paiva. Nenhum desses passou para a tela grande.
Sem contar, é claro, com os desenhos animados inspirados na Turma da Mônica e nos personagens do Angeli, como foi o caso da animação do Wood & Stock, que quase não teve divulgação. Acredito que haja muita coisa independente que a gente fica sem saber…
Abrações!
Giorgio Cappelli também conhece Silvio Spotti, brasileiro que fez a arte-final de Cowboys & Aliens. Vocês acham que dá pra fazer uma entrevista com ele?
Sim, Giorgio, fique à vontade para entrevistar o Silvio Spotti.
Ainda tenho alguns exemplares do Destinos Oeste pra vender, quem se interessar é só entrar em contato comigo pelo facebook http://www.facebook.com/ricmilk
Sobre adaptações live action de HQs nacionais, está meio que no limbo a saga do detetive Diomede, criação do Mutarelli (a produção já tentou negociar até com a HBO pra ver se o canal viabilizava uma minissérie, mas os altos custos com efeito especial empacaram a negociação); e também foram vendidos os direitos de Cachalote, do Galera e do Rafael Coutinho.
“Altos custos com efeito especial”… E se as criaturas fizessem animação 2D?
Oi Giorgio,
agradeço a lembrança e aos elogios, concordo com vc, o Ribbentrop daria um filme de animação ou de atores reais muito divertido. Estou retomando a personagem, depois de 21 anos creio que está na hora do Ribbentrop sair das trincheiras e ir para as livrarias com novas histórias.
um grande abraço,
José Duval