Nosso texto de hoje começa com um “era uma vez”.
Era uma vez um jovem chamado Frank, quinto de sete filhos da família Miller. Frankzinho, como o conheciam, passava horas e horas abraçando detetives que andavam armados e cheiravam a cigarro. Outras vezes, agarrava-se a sujeitos de roupas coladas e músculos definidos.
Calma, não é o que você está imaginando. Deixe-me tentar de novo: o pequeno Frank adorava ler romances policiais e histórias em quadrinhos de super-heróis. Lia em tal profusão que acabou tomando gosto pela coisa e decidiu tornar-se escritor e desenhista.
Cheio de coragem, partiu de sua terra natal, Maryland, atrás de um emprego. Nada de sonhar baixo; mirava nas grandes editoras dos Estados Unidos: Marvel e DC. Como não arranjou nada por lá, acabou se contentando com as menores mesmo.
Começou em 1978, na Gold Key Comics, editora especializada em quadrinhos baseados em seriados antigos (Besouro Verde, Jornada nas Estrelas, O Túnel do Tempo etc.) desenhando uma história de Além da Imaginação. Isso o levou a ter seu talento rapidamente reconhecido, e logo os chefões da DC o colocaram para fazer uma HQ de guerra de uma só página. Muitas páginas depois, assinou trabalhos mais extensos, com meia dúzia de pranchas, ainda no ano de 1978.
Seu primeiro serviço para a Marvel foi o lápis de 17 páginas para a série John Carter, Warlord of Mars, baseada em um livro de Edgard Rice Burroughs, criador de Tarzan. Aliás, John Carter vai chegar aos cinemas em breve! Mas não vamos nos desviar do assunto.
Com um pé na Marvel, Frank pôde ilustrar aventuras do Homem-Aranha e do Demolidor. Mais exatamente no número 158 de Daredevil (tradução desnecessária), o artista passou a inserir elementos até então inéditos nas HQs de super-heróis: um clima de filme noir, cenários centrados no bairro nova-iorquino de Hell’s Kitchen (Cozinha do Inferno), transformando a cidade do divertido Aranha num local sombrio. Quem sabe um reflexo da vida do próprio Miller; nascido em um Estado tipicamente agrário, naturalmente ficava deslumbrado com uma metrópole.
Aliás, deslumbramento parece uma constante para esse artista. Enquanto produzia as aventuras de Matt Murdock, ajudando na arte e, em seguida, nos roteiros (fato que promoveu a revista, de bimestral para mensal), o jovem Frank teve um contato imediato com a série Lobo Solitário, o famoso mangá de Kazuo Koike (roteiro) e Goseki Kojima (desenhos). Pra quê?! As dezenas e dezenas de páginas sem balões nem legendas marcaram-no a ponto de deixá-lo “subitamente apaixonado” pela cultura japonesa.
Bastou esse contato para nosso herói não enxergar mais nada na frente que não a estética dos mangás. Em 1982, Miller carregou todo esse deslumbramento para a minissérie Wolverine (que aqui no Brasil ganhou o subtítulo Dívida de Honra, pela Panini).
Nesse trabalho, como muita gente sabe, o X-Men mais invocado e mais popular da equipe ganha uma namorada nipônica, garras no formato de espadas de samurai, viaja para a terra de Kurosawa e se mete com ninjas e a Yakuzá. Detalhe: essa namorada, Mariko, tem o mesmo nome da jovem japonesa que se envolve com um ocidental no romance Shogun, de James Clavell.
A aventura em quatro partes, realizada em parceria com Chris Claremont, deu novos contornos à personalidade de Logan, até então visto pelo próprio Frank como pouco mais que um Taz falante. Vale observar que a arte-final de Joseph Rubinstein melhorou sensivelmente o traço “publicitário anos setenta” de Miller.
A nipomania frankmilleriana acabou transbordando também em seu trabalho posterior, Ronin, de 1984, uma mistura de ficção científica com lenda, repleta de todos os (bons) cacoetes de um mangá tradicional, que não recebeu o merecido reconhecimento.
Apesar disso, o sucesso nas remodelagens de dois personagens da Marvel permitiu que o rapaz de Maryland se arriscasse pela DC. Em 1985, chegou a sugerir uma atualização nas pratas da casa: Superman, Batman e Mulher Maravilha. Sugestão negada.
No ano seguinte, entretanto, a editora mudou de ideia e convidou o desenhista/roteirista a fazer um upgrade no Batman. Surgiu, então, aquela que muitos consideram sua obra máxima: Batman – O Cavaleiro das Trevas, sucesso de público e crítica do qual já se disse tudo: divisor de águas dos quadrinhos, gerou imitações inferiores, inaugurou o conceito de graphic novel e mais uma série de chavões dos quais pouparei os fãs de quadrinhos que me leem.
Essa publicação deixa patente que a experiência com Claremont e Wolverine fez todo o amor de Frankie pelos mangás desaparecer atrás de uma bomba de fumaça ninja. A partir de Cavaleiro das Trevas, troca-se a narrativa em imagens pela profusão de legendas em primeira e terceira pessoas. Vemos esse expediente utilizado exaustivamente em Batman – Ano Um, A Queda de Murdock e Demolidor – o Homem Sem Medo. De repente, o sujeito que revigorou personagens e revolucionou a linguagem dos comics desapareceu. Tudo o que se seguiu – Sin City, Hard Boiled, 300, Robocop 2 e 3, sem falar no unanimemente execrado Cavaleiro das Trevas 2 – resume-se a violência gratuita. Nenhuma inovação, nenhuma sutileza, nada de roteiros inteligentes, zero de surpresa. O ápice desse vale de lágrimas veio com a adaptação para os cinemas de The Spirit, que não guarda semelhança nenhuma com os quadrinhos originais do grande Will Eisner.
O que teria acontecido com Miller? Ficou preguiçoso? Acomodou-se? Perdeu a mão? Esqueceu o cérebro no metrô? Este articulista espera que o artista que tantas contribuições deu à nona arte tenha sido apenas temporariamente substituído por um sósia extraterrestre e que volte logo, mostrando que é um dos melhores no que faz (e o que faz de melhor é bastante divertido), retornando apenas com uma desagradável lembrança de ter se submetido a uma sonda retal alienígena.
Giorgio Cappelli está tradutor e roteirista e torce para que o espírito (e não the Spirit) do Will Eisner apareça à noite no quarto do farsante que tomou o lugar de Miller e lhe puxe as pernas.













Teu texto e análise ficaram excelentes, e eu concordo e discordo em algumas partes.
A parte na qual concordo é que os trabalhos de FM perderam seu lugar da metade dos anos 90 pra cá. E olha que tanto Sin City quanto 300 têm lá seus méritos. Esses dois exemplos, por mais anacrônicos e misóginos que sejam, ainda têm em suas narrativas aqueles pequenos brilhos que víamos nos trabalhos inicias de Miller. Sin City é o noir levado ao máximo, beirando o pastelão, somado a “macho comics”, coisa que já se via mesmo em suas histórias bem no início, em personagens como Justiceiro e Demolidor. 300 é a definitiva expressão milleriana da guerra.
Mas embora seus críticos façam cara feia para ambas as séries, elas não deixam de ser, como tudo que ele faz, exatamente a mesma coisa que ele faz desde que começou sua carreira. Quadrinhos broncos, curtos, grossos, violentos e cheios de ação, acompanhados por “voice over” (como você mesmo disse, na terceira e primeira pessoas) que fariam o Sam Spade de Bogart sorrir.
Por mim, notei que Miller estava ficando fora de época quando li sua medonha história de Batman & Spawn. Ora, aquela era uma época na qual Kingdom Come, do Mark Waid, trazia lágrimas aos olhos, enaltecendo o super herói como defensor da paz, não “forçador” da mesma. Os anti-heróis cheios de mágoa e prontos pra colocar o mundo a seus pés estavam perdendo espaço, e uma nova era, de compreensão e heroísmo como virtudes, renascia pra reafirmar os superes ao que realmente deveriam fazer: auxiliar. Não é a toa que Liefelds da vida, que até então precisavam somente mostrar um sujeito parrudo, com cara de mau e pencas de armas, eram mal vistos (vale lembrar que seus quadrinhos antes vendiam muito) . E Miller nisso tudo continuava fazendo o que fazia melhor (vide o segundo cavaleiro das trevas e etc.) mas, citando um baixinho, o que ele fazia não era mais tão bonito de se ver. Ele continuava apostando em heróis amargurados distribuindo taponas nas orelhas de qualquer um que lhes passasse a frente.
A parte de teu texto na qual não concordo vem exatamente disso. Enquanto o mundo pedia por um pouco mais de entendimento ao invés de imposição, como motivação nas histórias, Miller continuava (e continua) batendo na mesma tecla. Escritores que admiro muito, como Moore, Morrison e Gaiman (sem falar do já citado Waid), já há tempos viam essa mudança e fizeram histórias de acordo. O Animal Man de Grant Morrison e a saga do Monstro do Pântano de Alan Moore foram praticamente precursores disso. Arcos que eram resolvidos muito mais em diálogos do que em tiros. Mas Miller não.
Ele continua fazendo o que faz desde o início, com ou sem beber nas narrativas silenciosas de Itto Ogami. Ele pega uma fórmula que sempre usou pra tudo: um cara perturbado querendo forçar ao mundo uma ordem que funciona perfeitamente na cabeça dele. E mesmo suas poucas novidades e inovações (como algumas narrativas entrecruzadas de Sin City e sua comparação, no 2° dark Knight, de super heróis como modismo e forma da juventude não se considerar tão apática) não fazem mais a alegria de ninguém por um único motivo: os leitores evoluíram.
Tudo o que Miller fez desde que começou, é baseado numa mesma premissa. Se tornou novidade e maravilhoso quando ele inaugurou, porque ninguém ainda havia feito. E ele continua nisso até hoje. Ele não ficou gagá de repente. Suas imbecis palavras sobre o Occupy dizem exatamente isso (“um cara perturbado querendo forçar ao mundo…”) sem nada esconder. Ele não mudou. É nisso que discordo. Ele nunca foi abduzido. Nós, os leitores, é que queremos algo melhor.
E ele parece incapaz de oferecer.
Grande abraço.
Olá, Pensador Louco!
Obrigado por suas palavras!!
Você acha que Miller sempre foi o mesmo e nunca evoluiu; nós é que mudamos.
Eu imagino que ele se comporta como um super-herói que, sabendo que já impressiona erguendo duzentos quilos, fica por isso mesmo, apesar de aguentar fácil meia tonelada com uma das mãos. Ficou acomodado na mesma formulinha. No fundo, no fundo, nós dois dissemos quase a mesma coisa.
O Miller que fez Cavaleiro das Trevas (só o um! Só o UM!!) e A Queda de Murdock jamais cometeria o sacrilégio no filme do Spirit, que nem sequer levou em conta a essência do personagem, lhe dando super-poderes. E a inteligência, e a malandragem do Denny Colt?
A reação dele contra a molecada do Occupy eu soube por alto. Ele teria chamado todos de “mimados” e “vagabundos”, é isso?
Ainda torço pelo dia em que os Etês o devolvam. Histórias de violência gratuita o Tarantino já faz. Assiste quem gosta.
Abrações e boa semana!
A resposta deles aos occupy é por que ele vive lá e sabe muito bem que os classe media lá são uns bolhas que só estão reclando por que ,não vão poder comprar a versão mais recente do Iphone no Black Friday. Eles são mimados e vagabundos que nunca passarm fome na vida.
Giorgio curtiu isso.
Na realidade não podemos desvincular um escritor de suas convicções o Miller político é o mesmo Miller escritor, suas mensagens que descarregam uma violência e exagero são bastantes evidentes em seus personagens. Basta observar atentamente as hqs com que trabalhou. De fato houve um período curtissimo em que um brilho de genialidade perpassou sua mente e a violência era apenas um adereço não a premissa de sua narrativa. Todavia, não é falta de criatividade ou de ele ter parado no tempo que o faz criar roteiros tão batidos e já tão prematuros que nem são capazes de sobreviver ao novo, ao diferente. Na realidade Frank Miller nunca foi reacionário e nunca tentou de verdade trazer alguma substancialidade a temas tão novos e controversos como ecologia, economia, política, esporte, humanidade, tecnologia e etc, sem se utilizar da violência como se tudo dependesse disso. O fato é que ele não percebeuque o mundo e as coisas mudam com uma velocidade impressionante e necessita-se que novos temas sejam abordados por novos viézes interpretativos, sendo que muitos deles não necessitam de violência, sexo ou balas, mas simplesmente de percepção intuitiva das relações em que envolvem os personagens assim como os temas que os envolvem. O Frank acredito que não foi abduzido ou coisa parecida…ele simplesmente deixou de observar que o mundo necessita de que os escritores de hq ou cinema passem a dialogar com o seu tempo e com aqueles temas que fazem parte de nosso cotidiano que na maioria das vezes não necessita de tiros ou socos para resolver os problemas. Basta observar as últimas e ótimas graphic que estão saindo para verificar temas tão banais e humanos que nos faz pensar que podem de fato acontecer conosco. Miller necessita, ler mais do que historias de detetive ou de herois de roupa coladas…ele deveria se voltar para o homem comum que se entristesse e sorrir consigo mesmo pelas confusões e burrices que faz por ai….é nisto que consiste o mundo hoje em dia…desde as intolerancias até a mediocridade…que ele passe a escrever isso, o que é o verdadeiro desafio de qualquer pessoa!
Bom… pra responder com mais elementos eu precisava ler “Holly Terror”, a minissérie que ERA pro Batman estrelar. Alguém arriscou?
Eu li duas páginas e depois só olhei as figuras. As que davam prá ver o que era.
A mesma coisa eu fiz com o comentário do pensador maluco. Depois do “anacrônicos e misóginos ” eu parei de ler.
Mark Waid trás lagrimas aos olhos. Cada um chora por onde tem saudade.
E eu não tenho saudades depois que eu aperto a descarga.
This aritlce went ahead and made my day.
I apreciate, inspector Callahan!
Olá, pessoal. Achei este site aqui http://www.multiversodc.com/v2/2011/12/santo-terror-batman-a-incompetencia-de-um-artista-falido/ pra colocar mais lenha na fogueira.
Etês, por favor, a brincadeira já perdeu a graça. Devolvam nosso Frank Miller, e logo.
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OH cara !!! Se vc lê o artigo em português escreva a resposta em português, ou vai catar côco.
Miler sempre foi um escritor fraco, com histórias bobas e argumentos pífios.
O tal mérito dele foi tratar com mais seriedade super-heróis (ideia de jeca, já que qualquer bom escritor já teria abandonado histórias infantiloides de mascarados para o público lorpa/virgem). E só.
Miller não tem nenhuma obra boa. Nenhuma. Sin City é o típico enredo de sessão da tarde. Batman é só Batman, aquela besteirada de um mascarado combatendo o crime que escritores preguiçosos fazem para não queimar muitos neurônios. E 300 é tão clichê e cheio de erros factuais que quase me faz rir.
Além disso tudo, ainda é um reacionário mala sem qualquer noção do local onde vive.
Enfim, Miller é um bosta. E quem gosta e/ou o idolatra, deve comer grama na dieta.