Os roteiristas Marcos Franco e Marcelo Lima trouxeram para os quadrinhos, em 2010, a história do escravo rebelde, conhecido como Lucas da Feira, batizada de Lucas da Vila de Sant´Anna da Feira.
Calcado no conceito histórico do “banditismo social”, que tem como exemplos Lampião, Cabeleira e Jesuíno Brilhante, o roteiro não tomou partido ao mostrar as ações de Lucas, deixando sabiamente esse julgamento para o leitor.
O álbum trazia uma história interessante, mas interrompida abruptamente, o que rendeu críticas quase unânimes aos autores, que explicaram a necessidade de “enxugar” a trama devido ao número de páginas abarcado pelo projeto.
Após anos de pesquisa, Marcos Franco havia coletado um farto material e sentia a necessidade de narrar dignamente a história de Lucas da Feira. Por isso, assumiu a tarefa de revisitar o personagem na graphic novel Sant’Anna da Feira, Terra de Lucas (180 páginas, P&B, R$ 30,00), novamente desenhada por Hélcio Rogério.
Neste álbum, a ação tem início em 1846, quando José Pinheiro Vasconcelos, então Presidente da Província da Bahia, ordena a prisão de Lucas da Feira.
A partir daí, a trama é entrecortada por flashbacks, nos quais Lucas, já preso, relembra sua infância, adolescência e vida adulta, reconhecendo momentos em que foi um benfeitor e outros nos quais empregou nos brancos uma violência similar à aplicada aos escravos negros pelos seus senhores.
Enquanto isso, no tempo presente, vê-se a delação, a captura, o encontro com D. Pedro II, a condenação e a execução de Lucas, em 1849, quando ele perdeu a vida para virar uma lenda.
O amadurecimento de Franco e Rogério é latente em Sant’Anna da Feira, Terra de Lucas. Destaque para o refinamento da narrativa, com subtramas bem construídas, as transições tempo-espaciais feitas de forma exemplar, não provocando cortes violentos na trama, e a opção pelo emprego do “matutês” nos diálogos, conferindo autenticidade à história por aproximar o leitor do universo dos personagens.
Além disso, o traço mais solto e expressivo de Rogério, com bom domínio de anatomia humana e de animais, e um cuidado valioso com o cenário e as construções históricas, fazem a leitura fluir de forma prazerosa.
A obra traz amplos apêndice e glossário dos termos e expressões regionais empregados nos diálogos, bem como referências bibliográficas, esboços e um ótimo prefácio da Professora Renailda Ferreira Cazumbá, apresentando um pouco do Lucas dos documentos históricos e comentando o trabalho de Franco.
Sem dúvida, uma das melhores obras de revisionismo da História Nacional, junto a Chibata, O Cabeleira, D. João Carioca e AfroHQ.
Para adquirir a obra, basta solicitar um exemplar através do e-mail: santanadafeira@gmail.com
(Resenha publicada no Universo HQ)












