Embora o cinema hollywoodiano seja marcado por seu viés comercial, o flerte com o cinema europeu sempre esteve presente. Tanto que em 1947, a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas criou um Oscar honorário para premiar filmes realizados fora dos Estados Unidos, e a partir de 1957 foi inserida no Oscar a categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira.
Em algumas edições do Oscar, películas inglesas chegaram a concorrer e levar pra casa o prêmio máximo de Melhor Filme, como A Ponte do Rio Kwai (1958), Lawrence da Arábia (1963), As aventuras de Tom Jones (1964), O homem que não vendeu sua alma (1967), Oliver! (1969), Carruagens de Fogo (1982), Gandhi (1983), Quem quer ser um milionário? (2009) e O discurso do rei (2011).
Nessa 84ª edição do Oscar, presenciamos uma abertura ainda maior por parte dos membros da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas. Produções francesa, franco-belga, iraniana e espanhola, remake norte-americano de filme sueco, diretor francês e atores francês e mexicano concorrendo de igual pra igual com blockbusters, produções independentes e astros norte-americanos. É Hollywood deixando de olhar para o próprio umbigo e abraçando o “world cinema” (quem sabe num futuro bem próximo uma produção genuinamente bollywoodiana concorra a Melhor Filme?).
Com todo esse entusiasmo pelas produções de língua não-inglesa, temos, como sempre, os injustiçados. O dinamarquês Melancolia, de Lars Von Trier, é a grande ausência, seguido do norueguês Insanamente Feliz, do húngaro O Cavalo de Turin, e do brasileiro Tropa de Elite 2. Entre as produções norte-americanas, Super 8, de Steven Spielberg, também deixa um vácuo (foi a única coisa boa, junto com As Aventuras de Tintim, que ele fez em 2011). Em se tratando de documentários de longa-metragem, o excelente José e Pilar, do cineasta português Miguel Gonçalves Mendes, merecia estar na lista.
Pelo que foi visto no Globo de Ouro e no BAFTA, a produção franco-belga O Artista tem grande chance de abocanhar, merecidamente, mais da metade dos 10 Oscar aos quais está concorrendo. Uma senhora homenagem aos filmes mudos, escrita, dirigida e editada por Michel Hazanavicius (roteiro impecável, com direito a um delicioso jogo de metáforas internas entre os fictícios títulos dos filmes e as ações/sentimentos dos personagens), com elenco afiado, encabeçado por Jean Dujardin e Bérénice Bejo (dupla que já havia trabalhado com Hazanavicius), fotografia ímpar e direção de arte idem. Em minha opinião, O Artista ganha fácil os Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Roteiro Original e Montagem, e pode ficar com Melhor Fotografia e Trilha Sonora também.
Outro filme que saúda o cinema é A Invenção de Hugo Cabret, um dos trabalhos mais positivos de Scorsese, que investiu boa parte de sua cinefilia ao contar a história de George Mèlies, o pai do cinema fantástico, exaltando também os Irmãos Lumière, Buster Keaton e Charles Chaplin. Infelizmente esse ano Scorsese não teve sorte, pois O Artista certamente vai tomar alguns dos Oscar que lhe seriam destinados, mas Hugo deve ganhar como Melhor Roteiro Adaptado (disputando a tapa com Os Descendentes), Direção de Arte e Figurino.
Histórias Cruzadas (um bom filme Sessão da Tarde sobre a luta contra o preconceito étnico no sul dos Estados Unidos no início da década de 1960) concorre a quatro Oscar, mas deve ficar apenas com o de Melhor Atriz Coadjuvante para Octavia Spencer por sua Minny Jackson, que rouba todas as cenas nas quais aparece.
Quanto ao Oscar de Melhor Atriz, a expectativa é grande para ver Meryl Streep levando, pela segunda vez, o careca dourado pra casa por sua atuação como Margaret Tatcher, em A Dama de Ferro (o Globo de Ouro e o BAFTA ela já levou). Se bem que a caracterização de Michelle Williams (que vem surpreendendo desde o independente Wendy e Lucy) como Marilyn Monroe não deixa a desejar, e possa colocar água no champanhe de Streep.
Para Melhor Ator Coadjuvante, as apostas estão altas no veterano Christopher Plummer por Toda forma de Amor (que ainda não assisti), mas minha torcida é por Max Von Sydow como o velho amargurado surdo-mudo de Tão forte e Tão perto.
Os concorrentes ao Oscar de Melhor Longa Animado estão muito fortes esse ano (a ausência absurda é Rio, de Carlos Saldanha). Fico na torcida pelo espanhol Chico & Rita, primeira animação do diretor Fernando Trueba, porém o chatinho Rango deve ganhar mesmo.
Finalizando, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, sem sombra de dúvidas vai para o iraniano A separação. Extremamente simples e bem realizado, vemos a separação de um casal dar início a um amontoado de situações, que como uma bola de neve vão esmagando e quase destruindo as vidas de duas famílias, uma muçulmana radical e outra mais liberal.












