[Entrevista] Gabriel Bá e Fábio Moon

Gabriel Bá e Fábio Moon são os quadrinistas brazucas mais premiados e queridos, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.

Eles foram à sexta edição do FIQ para lançar dois quadrinhos, Umbrella Academy – a suíte do Apocalipse (pelo qual Bá ganhou o  prêmio Harvey de melhor desenhista de 2009) e Pixu.

Apesar do cansaço e do enorme assédio dos fãs, eles simpática e generosamente me concederam essa entrevista.

1) Após vocês terem ganhado tantos prêmios importantes e terem conquistado tanto os mercados internacional e nacional, a responsabilidade para os próximos trabalhos aumentou. Vocês já chegaram a recusar algum trabalho ou a engavetar um projeto pessoal por receio de não darem “conta do recado”?

Gabriel: Olha, eu acho que os prêmios são ótimos, mas eles são sempre um reflexo do trabalho e se não tem trabalho, não tem prêmio. Então, a gente fica feliz, mas não é o mais importante. E desde o início da nossa carreira, a gente sempre tentou escolher bem os trabalhos que ia fazer, tanto os nossos autorais, as ideias que a gente gostava, quanto os projetos que propunham pra gente. Então, a gente sempre teve que escolher e sempre teve ofertas que a gente não pode fazer, não tava a fim ou não se achava apto… (pausa)

Fábio: A gente teve que recusar projetos porque não dá pra fazer tudo. Tem que saber escolher e a gente continua escolhendo.

Gabriel: Hum, hum. É mais pelo tempo. E a gente faz isso até hoje.

2) Como se dá o processo de criação e desenvolvimento de uma HQ do Moon e do Bá?

Fábio: Bom, primeiro a gente tem uma ideia, pode ser a ideia de uma imagem ou de uma frase, aí quem teve a ideia fala pro outro. Tem que ser uma ideia que os dois vão gostar, para os dois poderem fazer juntos. E a partir daí a gente desenvolve o roteiro e vê qual o traço é melhor pra desenhar e contar a história de uma forma melhor ou quem tem mais tempo pra fazer o projeto. E aí a gente decide quem vai desenhar. E desenha e pronto (fala sorrindo).

3) Qual foi o trabalho mais significativo e mais gratificante, até o momento, para cada um?

Gabriel: Ah… (faz pausa para pensar), eu gosto muito dos gibis que a gente faz com a Becky Cloonan e com o Vasilis, tanto o 5 quanto o Pixu. Eles tem tudo que a gente acha que pode fazer e que a gente quer que tenha nos quadrinhos. A paixão que a gente põe nas histórias… e conseguir ver isso em outros autores também. Então, a gente vê as histórias deles ali e adora. E da mesma forma isso faz a gente querer fazer um negócio melhor. Então, acho que o 5 e o Pixu, até agora, são os trabalhos mais gratificantes que a gente fez.

Fábio: Fazer livro é legal. Quando a gente termina a história, é sempre bom. A gente tem orgulho de todo livro que a gente fez. Desde todos os 10 Pãezinhos, que a gente adora as histórias e acredita nelas, até o Alienista, que foi um convite da editora, mas que a gente abraçou e é o “nosso” Alienista, é um negócio que a gente tem um apego muito pessoal, até os projetos que a gente faz lá fora (nos Estados Unidos), que a gente só trabalha como desenhista, esses também fazem a gente crescer bastante como desenhista, então… não tem muita coisa de que a gente se arrependa ou que a gente não goste, olhando pra trás.

Gabriel: É, eu acho também que o Umbrella Academy é um gibi que fez muito bem pra mim como desenhista, como contador de história, como profissional. É um projeto espetacular e que eu dei muita sorte de fazer parte dele. Ele faz bem pra minha relação com os quadrinhos.

4) Vocês estão publicando a série de tirinhas QuaseNada, semanalmente, na Folha de São Paulo. Ter aceitado esse projeto foi meio que uma espécie de desafio?

Fábio: Foi um desafio pensar em alguma coisa que a gente achasse que funcionasse nesse formato de tira, mesmo que fosse uma tira um pouco maior. Pensar no que a gente poderia fazer, pensar numa linha de histórias pra colocar no Quase Nada. Esse foi o desafio, né? A gente tem o desafio de criar uma história toda semana, mas a gente cria história todo dia e desenha página todo dia. O desafio maior foi encontrar um negócio que a gente achasse que valesse a pena colocar no formato pra jornal ou pra internet, que é onde a gente publica depois que sai no jornal.

5) Analisando tecnicamente o quadrinho nacional, na opinião de vocês, há mais erros do que acertos? O que é que precisa melhorar, tanto no roteiro quanto no desenho?

Gabriel: No quadrinho nacional há um pouco de tudo, então eu acho que só quando tiver mais produção é que o quadrinho vai melhorar. Claro que com mais produção, virão mais erros, mas esses erros vão resultar em mais acertos, que é a evolução natural  do artista que começa trabalhando, aí vai amadurecendo e melhorando e evoluindo. Eu acho que é isso. Falta mais produção, apesar de que tem melhorado muito desde quando a gente começou até hoje, mas dá pra crescer muito mais.

Fábio: Eu concordo com tudo o que ele falou (diz com um sorriso bem largo).

6) Como vocês conheceram a Becky Cloonan e o Vasilis Lolos, parceiros dos projetos 5 e Pixu?

Gabriel: A gente encontrou a Becky na Comic Con de San Diego, em 2003. Ela parecia um menininho, tinha o cabelo bem curtinho. A Becky tinha contrato com a editora AiT, mesma editora que publicou o Meu coração não sei por que, no mercado americano, que saiu como Ursula. O Vasilis a gente conheceu em 2004, também em San Diego. E aí a gente ficou amigo. Em 2007, pensamos em fazer um gibi pra levar pra San Diego. Foi assim que surgiu o 5. Já com a Pixu, a gente queria fazer um gibi de terror, algo diferente do que havíamos feito antes.

Entrevista concedida a Milena Azevedo no penúltimo dia do VI FIQ (11/10/2009).

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