[FESTNATAL 2011] FestNatal: ainda vale a pena?

Em sua vigésima primeira edição, o FestNatal mostrou que precisa de uma auto-reflexão urgente para saber se ainda vale a pena insistir em um festival de cinema feito apenas por amor à sétima arte.

Durante a década de 1990, o FestNatal trazia à cidade inúmeros artistas, diretores e produtores, contava com uma mostra competitiva muito boa, e tinha repercussão nacional. A sala de cinema do Centro de Convenções de Natal ficava lotada, não apenas por convidados ou imprensa, mas de pessoas que iam prestigiar, com gosto, o evento.

Faz pelo menos três anos que o festival vem perdendo a qualidade, primando por selecionar filmes que já estiveram em exibição comercial nos cinemas locais (alguns até cujos dvds são facilmente encontrados em lojas de departamentos) e, pior, contando com raríssimas pré-estreias.

Com todos os problemas de patrocínio que o Sr. Valério Andrade, o criador e organizador do FestNatal, vem somando (mesmo contando com o apoio do Governo do Estado e da Prefeitura do Natal), praticamente fazendo o evento com a cara e a coragem, infelizmente em 2011 o trem descarrilou de vez.

Quem foi ao Moviecom mais se aborreceu do que gozou a oportunidade de assistir a um filme legal, com preço acessível (os ingressos custavam R$ 3,00 para cada sessão, inclusive no fim de semana). Desde o primeiro dia, terça, 6 de dezembro, a programação sofreu alterações. Ao invés da comédia Família Vende Tudo, foi exibido o drama Estamos Juntos. Na quarta, a mesma coisa. Malu de Bicicleta foi “trocado” pelo documentário Prova de Artista (por sinal, excelente, e o melhor título da mostra Vidas na Tela que assisti). Na quinta e na sexta a programação foi normal, mas ainda sem a exibição de Família Vende Tudo, prometido para a sexta-feira. Onde está a felicidade? foi “transferido” do sábado para o domingo, sendo substituído por Malu de Bicicleta. E o documentário Contestado – restos mortais, de Sylvio Back, das três sessões divulgadas, só foi exibido na sessão das 20:00 horas do sábado.

Isso sem contar as cédulas de votação que, algumas vezes, atrasavam e impediam o júri popular de expressar o seu voto às películas assistidas.

A organização do FestNatal e a equipe do Moviecom garantiram que as cópias de todos os filmes foram agendadas com as distribuidoras previamente, mas as mesmas não foram entregues nos dias programados. Tanto que Família Vende Tudo foi retirado da programação, sem nenhum aviso prévio. E falta de agilidade na comunicação, em tempos de internet e mídias sociais, é uma desculpa inaceitável.  Erraram as distribuidoras e a assessoria de marketing do FestNatal, que não avisaram à população sobre as alterações (eu fiz a minha parte divulgando, via twitter, as informações que me eram repassadas. E não tenho nada a ver com o FestNatal ou o Moviecom. Estava apenas cobrindo o evento em nome do Guia Cultural Solto na Cidade).

Da seleção feita pelo FestNatal, destaco Bollywood Dream – o sonho Bollywoodiano, co-produção Brasil/Índia, lançada no mês de abril desse ano e inédita nos cinemas natalenses. A jovem diretora Beatriz Seigner, estreando no cinema, fez uma ficção com estética documental sobre três atrizes brasileiras que largam tudo para realizar o sonho de atuar na mega indústria cinematográfica de Bollywood, na Índia. Mesmo com tudo dando errado, elas não desistem, e irão descobrir que o caminho para se alcançar o destino pode ser difícil e complicado quando ambos não são traçados numa mesma direção.

No entanto, como melhor filme, voto em Antes que o mundo acabe, uma produção de 2009 da Casa de Cinema de Porto Alegre, dirigida por Ana Luiza Azevedo, até então roteirista e uma das fundadoras da citada produtora gaudéria. A adolescência no interior de uma pacata cidade gaúcha, na qual o principal meio de transporte é a bicicleta, retratada por três amigos (Daniel, Mim e Lucas) que fazem planos para partir dali e ganhar o mundo. Mas os hormônios em rebuliço de Daniel são surpreendidos pela chegada de várias cartas de seu pai biológico e pelo namoro entre Lucas e Mim. Como ele irá encarar essas novidades? Uma deliciosa mistura de Spielberg e Truffaut, com roteiro redondinho e atuações precisas do trio principal.

Resumo da ópera, no ano em que o FestNatal poderia dar uma guinada, pois incorporou a mostra Vidas na Tela, exibindo bons documentários em paralelo aos filmes ficcionais, as distribuidoras mostraram-se totalmente descrentes do evento, que assim perdeu os últimos brios que ainda lhe restavam.

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2 respostas a [FESTNATAL 2011] FestNatal: ainda vale a pena?

  1. Paulo Jorge Dumaresq disse:

    O FestNatal 2011 foi um horror no quesito (des)organização. Os filmes também deixaram muito a desejar. Como se não bastasse eu ter cortado a cidade de Leste a Sul e dar com os burros n’água – a cópia do filme “Malu de Bicicleta” não chegou a tempo de ser exibida no dia 7.12 – na exibição do bom documentário “Casa 9″, de Luis Carlos Lacerda, sessão das 16h10, do dia 8.12, a tela apagou. Tremenda falta de respeito. Não sei se a culpa foi do Moviecom, que presta péssimo serviço ao espectador natalense, ou da cópia do filme. Não importa. Lasca é ter a expectativa frustrada. Depois o filme voltou, mas aí a magia do cinema havia sido quebrada pela incompetência sei lá de quem. O FestNatal devia acabar, pois do jeito que está não tem condições de atender a um cinéfilo razoavelmente exigente. Para farofeiro, tudo bem, ir ao cinema é uma festa. Mas para mim é algo sagrado e vital. É como respirar. Zero para o FestNatal 2011, capricho e teimosia do senhor Valério Andrade.

    • Milena Azevedo disse:

      É, Paulo, por isso escrevi o texto. Esse ano foi medonho. Não adianta a imprensa daqui tentar encobrir as furadas, porque quem esteve lá sabe o que realmente aconteceu. Falta de consideração total com o público, pois, como você escreveu, houve quem se programasse para ver determinado filme, e descobrir já na bilheteria do cinema que o mesmo não seria exibido foi frustrante.

      E hoje à tarde, eu soube que mesmo com a presença do diretor Sylvio Back, o documentário Contestado – restos mortais, que garantiram seria exibido às 20:00 horas do sábado, não o foi. Explicaram que seria uma exibição on-line, mas os responsáveis furaram e não avisaram com antecedência. Isso diz o quê? Que as distribuidoras não levam a sério o FestNatal. É descrédito total. Então, se faz necessário mesmo repensar o evento.

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