[Entrevista] Spacca

João Spacca de Oliveira, ou apenas Spacca, é quadrinista premiado e reconhecido em todo o Brasil por seus álbuns que resgatam figuras históricas, promovendo uma salutar releitura das mesmas, bem como pelo cuidado com que trata adaptações literárias.

Conversei com ele em meio à produção de seu novo projeto, a quadrinização do livro de Lília Schwarcz, As Barbas do Imperador, uma biografia de D. Pedro II, que deve ficar pronto no segundo semestre de 2012. Spacca me permitiu mostrar uma página de “Barbas”, a qual vocês verão ao final da entrevista.

1) Em seus trabalhos com personagens históricos é recorrente o fato da desmitificação dos mesmos, haja vista sua preferência por humanizá-los em seu traço caricato.  Qual é o critério de seleção adotado por você para dar vida a esse tipo de projeto? (tipo, você seleciona dois ou três personagens, lê um pouco sobre a história deles e escolhe o que dará para extrair mais situações cômicas?)

Deixe-me ver se entendi a pergunta: você quer saber como eu escolho o personagem para uma HQ, se eu escolho o que tem potencial cômico, devido ao meu traço caricato? Bem, o traço caricato, creio, possibilita de maneira geral acentuar as emoções e intenções do personagem. De fato, pensa que esse tratamento humaniza, torna mais próximo do leitor o fato histórico. Não tanto pelo humor, mas pelo desejo de encenar, representar numa cena, como num filme ou peça teatral.

Não penso em extrair cenas cômicas, embora goste de quando elas ocorram; o que me faz decidir se tal personagem dará uma boa HQ é a presença de elementos de enredo, de drama completo em sua vida. Ou, a possibilidade de contar sua vida ou parte dela, de modo a conseguir “uma boa história”, com começo, meio e fim.

Outro fator que pesa é o desejo de criar certa polêmica, quando percebemos que o conhecimento popular desse personagem é um pouco falho, ou carregado de sentidos que distorcem o que acredito ter sido a verdade dessa história (eu acredito em verdade). Então, nasce o desejo de contestar essa imagem pública, oferecendo ao leitor não apenas uma outra versão, mas a versão mais plausível, bem documentada e mais próxima do que realmente ocorreu – como o objetivo de uma reportagem. Fizemos isso com Santos-Dumont (que não foi o único inventor do avião), com D.João VI (que não era apenas o rei fujão e comilão do filme “Carlota Joaquina”).

2) Você atua tanto como autor quanto desenhista. Em se tratando de quadrinhos históricos, sua preferência é trabalhar sob o direcionamento de um historiador como co-roteirista (no caso, a Lília Schwarcz) ou encarar sozinho toda a pesquisa?

Os roteiros sempre são meus, mesmo no caso das parcerias (Lília responde pela pesquisa e supervisão; o roteiro, ou seja, a criação de sequências, cenas e diálogos daquela forma, é meu, bem como parte da pesquisa também). No D.João, para encarar a bagagem da Lília, fiz uma pesquisa intensiva, por minha conta, para ficar mais familiarizado com aquela situação e poder propor acréscimos e soluções.

Eu não posso deixar completamente a pesquisa para um parceiro historiador. E não me refiro à pesquisa visual, refiro-me à pesquisa de ações mesmo. Preciso fazer a minha pesquisa. Como minha necessidade é criar roteiro, cenas, eu tenho necessidades um pouco diferentes do que um historiador normalmente tem.

Por exemplo, eu preciso saber o que D.João estava fazendo antes de receber a notícia da invasão francesa; preciso saber se as reuniões com os ministros eram em volta de uma mesa ou na sala do trono, com os ministros de pé; ou como essa situação era vista pelos generais de Napoleão, que tinham as montanhas da Espanha para atravessar. Preciso estudar um pouco a tecnologia da época, os navios, as armas; a heráldica, os brasões e medalhas; as datas das reformas visíveis no Paço…

Em suma, tudo o que preciso mostrar, preciso ter pelo menos uma noção.

A decisão de criar uma cena frequentemente levanta questões que um historiador comum não pensa em levantar (mas um historiador militar, preocupado com a logística de uma batalha, sim). Outras vezes ocorre o contrário: o historiador diz “foi feita a Abertura dos Portos”, e eu pergunto, como é que mostro isso? Como apresento visualmente o conteúdo de uma lei que “abre os portos”? Em texto, não se percebe quando algo não tem conteúdo palpável. Se eu não conseguir uma imagem que simbolize isso, teremos uma sucessão monótona de personagens escrevendo ou lendo documentos (às vezes é o que eu faço mesmo).

3) Qual foi sua sensação ao ver “seu” D. João adaptado para uma animação, ainda por cima ter tido a chance de conferir as etapas dessa produção?

Achei ótimo.

É uma animação limitada, quase um quadrinho com efeitos, mas o que mais gostei foi a vida que a HQ ganhou, ainda mais com as vozes, música e efeitos sonoros. Dubladores profissionais de muita qualidade, vozes famosas – e uma grande direção de dublagem, que soube escolher vozes muito adequadas.

Acontece que falamos a mesma língua, os dubladores e eu: eu aprendi a fazer cartum, vendo desenhos animados. E quando eles viram os meus desenhos, naturalmente buscaram vozes adequadas ao tipo físico – uma voz mais encorpada para o grandalhão Dom Rodrigo, uma voz mais hesitante para o D.João (do Valdir Santana, dublador do Homer Simpson) e o narrador, famoso pelas apresentações da antiga “Disneylândia” (Márcio Seixas).

Pode reparar que o texto das legendas da HQ, que não é muito mastigado, é até um pouco difícil para o leitor mais jovem, fica bem mais claro pelas entonações precisas que o narrador soube dar.

E os desenhos vistos na tela ficam mais próximos do que eu via na tela do meu computador, quando colori, do que impressos no papel.

4) Poucos sabem que já houve duas tentativas de adaptação de Jubiabá para os quadrinhos, décadas atrás, mas só você conseguiu concretizá-la e publicá-la. Quem teve a ideia de “quebrar essa maldição”, você ou a Cia. das Letras?

Quando decidimos fazer o “Jubiabá”, eu pensei que havia uma adaptação publicada pela Ebal. Fiquei na dúvida se devia vê-la ou não. Achei na internet a capa; porém, estranhamente, o título não fazia parte da relação completa dos títulos das “Edições Maravilhosas”. Tinha algo errado…

O Gonçalo Jr. me explicou: a capa saiu em algum anúncio, mas o Aizen achou a adaptação mal desenhada e não lançou. Não sei se era ruim, vi só algumas páginas reduzidas de luta de boxe, e não achei más. Descobri, pelo Gonçalo, que é possível consultar na Biblioteca Nacional os originais dessa HQ, e tirar cópia. Fiquei interessado, mas já estava no fim da minha adaptação, e não fui atrás.

Nós escolhemos “Jubiabá”, inicialmente por sugestão da Lília, mas ela deixou livre para eu propor outra, se quisesse (na década de 90, eu tinha lido “Tenda dos Milagres” e fiquei com muita vontade de quadrinizar a cena em que o policial negro vai quebrar um terreiro e é incorporado por Ogum, e se volta contra os outros policiais).

Achei legal fazer “Jubiabá” inicialmente por ser ambientada nos anos 1920/40, e eu já conhecer algo desse cenário por causa de outra pesquisa, sobre Monteiro Lobato, Estado Novo etc.

Depois, gostei da variedade de ambientes do romance, o que permite conhecer de relance quase que a obra inteira de Jorge, com cenas em Salvador, no Recôncavo, com meninos de rua como em Capitães da Areia etc. E sugeri que o escolhido fosse esse mesmo.

5) Ainda sobre adaptações literárias para quadrinhos, há editoras que estão se especializando em sua produção tão somente com o intuito de vendê-las como material paradidático. O que você pensa sobre essa prática e a qualidade discutível de alguns desses títulos?

Pois é, não vejo problema em querer aproveitar um filão; mas tem que fazer direito e com tempo para sair algo bom.

O que vejo às vezes é um roteirista pegar trechos de um livro, passar já editado para o desenhista (que “não precisa” ler o livro inteiro…) e darem um prazo muito curto para realizar. Ora, se o desenhista não ler, como é que um aluno vai se interessar? Por que ele teria vontade ou obrigação?

Olha, o adaptador (no caso eu faço os dois, texto e roteiro, mas se tiver parceria, o desenhista também precisa ler,mas é claro!) precisa não apenas ler, mas estudar o livro, ler e consultar muitas vezes… e ler outros livros correlatos, ficção e não-ficção. Ler entrevistas com o autor, críticas. No meu caso, ajudou já conhecer outros livros do Jorge (não muitos), conhecer outras adaptações (filme, novela) e ter uma opinião sobre sua obra. Por exemplo, sem dúvida a música “João Valentão” de Caymmi ajudou a compor o personagem Antonio Balduíno.

Em suma, se a gente não se envolver com o projeto, não saboreá-lo durante um tempo, não sai coisa que preste. Não dá par ser apenas “eficiente”, é preciso adotar o livro.

Eu prefiro não me sobrepor à obra: gosto de me colocar ao serviço dela, mesmo que a critique sob algum aspecto, gosto de ser um tradutor dela.

Entrevista realizada, por e-mail, no dia 22 de junho de 2011.


Abaixo, um preview de As Barbas do Imperador.


Esta entrada foi publicada em Entrevistas e marcada com a tag . Adicione o link permanenteaos seus favoritos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>