Paulo Ramos é jornalista, professor universitário, consultor de língua portuguesa da Folha de São Paulo e do UOL, e integra o Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP, além de ser o responsável por um dos blogs mais acessados da internet, o blog dos quadrinhos. É autor e co-organizador dos livros: Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula, A Leitura dos Quadrinhos, Quadrinhos na Educação: da Rejeição à Prática , Muito Além dos Quadrinhos e Bienvenido – um passeio pelos quadrinhos argentinos.
Nessa entrevista ele fala sobre as historietas argentinas e da importância de investir na instrumentalização dos professores para aplicarem embasadamente os quadrinhos na sala de aula.
1) Como surgiu a ideia de escrever sobre as historietas argentinas?
Surgiu entre 2007 e 2008, mesmo que, na época, eu não tivesse ainda me dado conta disso. Fiz nesse período quatro viagens a Buenos Aires, por diferentes motivos. Cada vez que visitava a cidade, procurava conhecer um pouco mais sobre os até então misteriosos quadrinhos argentinos. As passagens pela capital argentina renderam uma série especial no Blog dos Quadrinhos, página que mantenho no portal UOL. A partir dessas matérias é que a idéia do livro começou a ganhar forma. Muitos colegas e leitores viram nas reportagens o esboço da obra. Assimilei a idéia e decidi reiniciar o projeto do zero, com novas pesquisas e entrevistas. Retornei a Buenos Aires mais duas vezes em 2009, dessa vez especificamente para apurar informações para Bienvenido.
2) Há artistas que são verdadeiros ícones das historietas, como Héctor Oesterheld, Solano López, Roberto Fontanarrosa e Alberto Breccia. As editoras argentinas se preocupam em republicar periodicamente suas obras para que as mesmas cheguem às novas gerações?
Tem havido essa preocupação, sim. Não só na Argentina, como na Europa também. Algumas das melhores edições dos autores que você menciona são de fora da Argentina. Num paralelo com o Brasil, é algo que falta por aqui. Temos pouca memória de boa parte de nossos autores por pura dificuldade de acesso ao que produziram.
3) A produção de excelentes tirinhas sempre foi uma tradição argentina, apresentando personagens carismáticos, embora deveras críticos e irônicos, que incitavam reflexões sócio-político-culturais através do humor. Quais dessas tirinhas, com exceção das populares Mafalda e Macanudo, merecem ser publicadas no Brasil?
A Argentina tem essa tradição, é verdade, mas é justo registrar que o Brasil e os Estados Unidos também têm. A diferença é que, na Argentina, o diálogo com o leitor dos jornais é muito maior. Muito desse apelo se deve pela regionalidade dos temas abordados nas tiras, o que dificulta a leitura delas em outro país. Apesar disso, diria que passou da hora de haver uma edição brasileira com tiras de Clemente, de Caloi. Outros personagens interessantes são Yo Matías, de Sendra, Jim, Jam y El Otro, de Max Aguirre e Batu, de Tute. Batu será lançado no Brasil pela Zarabatana.
4) A Leitura dos Quadrinhos, seu livro anterior, vendeu mais de 4.500 exemplares em apenas um semestre. Isso mostra que os brasileiros estão finalmente entendendo quão necessário é ler material teórico sobre a arte sequencial?
Acredito que o livro supre uma lacuna no mercado brasileiro que era a de discutir a linguagem dos quadrinhos por meio de uma obra nacional. Tínhamos uma tradição de boas obras assim na primeira metade da década de 1970. Hoje, estão esgotadas. Tenho plena convicção de que para se entender uma manifestação artística, qualquer que seja ela, é necessário conhecer a história dela e seus recursos. Quanto mais pesquisas e trabalhos sobre quadrinhos tivermos no Brasil, mais bem compreendida será a área. Veja, por exemplo, o quanto sabemos sobre cinema, pintura e literatura por meio do olhar crítico de pesquisadores de diferentes partes do país.
5) Atualmente, no Brasil, há excelentes pesquisadores, como Waldomiro Vergueiro, Sonia Luyten, João Marcos, Henrique Magalhães e você, cujos trabalhos são focados na instrumentalização dos professores, visando um melhor aproveitamento das histórias em quadrinhos na sala de aula. Como tem sido o feedback desses “professores-aprendizes”?
Fica honrado em ser incluído numa lista assim, ao lado de pesquisadores tão importantes. Acredito que o diálogo com o ensino é apenas uma das facetas dos estudos ligados aos quadrinhos. E também uma das que exigem respostas mais urgentes por parte dos pesquisadores, dada a recente inserção de obras em quadrinhos nas bibliotecas escolares brasileiras – por meio de um programa do governo federal. Das poucas palestras que tive oportunidade de dar a professores, tenho percebido um comportamento homogêneo por parte deles: desconhecem a linguagem, os autores e as obras em quadrinhos, mas demonstram por ela um interesse sincero. A maioria se restringe ao conhecimento da Turma da Mônica e às tiras de jornal. Quando você mostra que há um volume de obras e de possibilidades muito mais amplo, o docente costuma levar um susto. Muitos dizem que não sabiam que os quadrinhos eram tudo isso, muito provavelmente por ainda terem a visão de que sejam uma forma de leitura exclusivamente infantil e, por isso, menor – o que não passa de um preconceito, como a literatura infantil está aí para comprovar.
Entrevista concedida a Milena Azevedo durante a 62ª Reunião da SBPC, em Natal.












