[Entrevista] Márcio Rampi

O  ilustrador e designer gráfico gaúcho Márcio Rampi deu vazão ao seu sonho de fazer uma história em quadrinhos e publicou recentemente a HQ Diz que duvida! pelo selo PanDaMo.

Nessa entrevista ele fala sobre sua relação com a nona arte, de  suas influências,  e do projeto de fazer uma HQ em parceria com o amigo Márcio Raupp.

1) Diz que duvida! é o primeiro quadrinho seu a ser publicado, no qual você assina o roteiro, desenha e arte-finaliza. De onde veio a ideia para essa história de mistério tragi-cômica?

Não sei se posso dizer que Diz que duvida! nasceu primeiro de uma ideia. Acredito que Diz que duvida! tenha vindo primeiro de uma necessidade – uma necessidade de fazer uma HQ que tivesse a minha cara, meu jeito de fazer HQ. Acredito que isso seja bastante comum para todo artista que está iniciando um processo de colocar para fora suas próprias histórias, e por isso faço questão de dizer como foi comigo. Lembro que, sempre que fazia HQs, meu traço pendia para os comics dos EUA (uma influência bastante natural e bem legal, saliento), mas acho que não me sentia plenamente satisfeito. Some-se isso aos muitos projetos inacabados na gaveta e o resultado era nenhuma HQ digna de ver a luz do mundo!

Agora, recordo também que – devo admitir hoje – eu era praticamente um caso perdido para as HQs, porque estava naquele limbo, sem uma HQ que pudesse chamar de minha ou um projeto sólido para tocar, mas no fundo permanecia aquela vontade de fazer HQs, e sabia que no fundo o que faz um artista ser um quadrinista é essa vontade de contar histórias em quadrinhos, não de outra forma, e esta vontade eu tinha. Aí, o mundo deu uma volta, minha namorada foi passar um tempo estudando nos EUA e levou um portfólio com desenhos meus para o mercado de lá, na cara e na coragem, um material que produzi em menos de dois meses. Foi isso que me despertou a capacidade de produzir. Faltava o traço que fosse meu, e isso eu descobri nos desenhos que faço nos cadernos de aula. Um dia estava fazendo um desenho com uma caneta esferográfica, olhei para ele e disse: “É isso!”. Daí para Diz que duvida! foi um pulo.

A história (agora falando da ideia) veio das muitas lendas sobre fantasmas aqui no sul, as lendas sobre casas mal assombradas. Eu estava escrevendo para um projeto ainda inédito e o tema era esse – fantasmas – e resolvi que levaria isso para minha HQ. Criei DQD! a partir do gordo Gomos, o personagem que faz a bobagem que vai desencadear a trama. Queria contar uma história de como nascem as lendas através da lenda do fantasma de uma casa mal assombrada pela ótica de um grupo de crianças que jogam a bola na frente desta tal casa. Fazer com que isso virasse algo tragi-cômico não foi muito difícil, imagino sempre que não haveria maneira melhor de contar a história de DQD! do que esta. E foi assim que foi: rápida, rasteira e direta. Queria também trabalhar a dualidade bem versus mal, isso de toda a história se definir pela vitória de um dos lados. Acabei não falando sobre as exceções, mas isso vai acontecer logo mais pra frente.

2) A sua experiência como ilustrador publicitário e designer lhe ajudou a desenvolver um estilo, um traço próprio, que você acabou trazendo para os quadrinhos ou são trabalhos totalmente distintos? E para desenhar, vale o lápis e a borracha na mão ou você prefere usar a mesa digital?

Ah, com certeza que tudo acaba se misturando. É bem complicado determinar onde está a HQ, o seu desenho, e onde está o que vem do design e da ilustração para publicidade, que varia muito de um trabalho para outro (o que é bem legal, porque obriga a gente a sair de um lugar para o outro e estar aprendendo sempre). Mas penso que, se tenho que falar sobre um estilo próprio, acredito que ele seja muito mais um estilo que mistura desenho tradicional com influência do traço estilizado das HQs, mais a experiência com design e ilustração publicitária, do que qualquer outra coisa.

Minha base artística, na verdade, é bem tradicional: desenho acadêmico, mesmo. Só que tenho, desde muito pequeno, esta relação com as HQs, que foi o que me fez chegar a um resultado hoje, em ilustração, que posso chamar de um traço meu. E nesse bolo todo, admito, a coisa pode acabar mesmo se confundindo. Isso acaba aparecendo no uso dos materiais, por exemplo.

Sou bem focado, nesse sentido, e parto para o desenho sempre no lápis, depois que começo a utilizar os outros elementos. Adoro bico de pena, nanquim, mas acabo utilizando de tudo um pouco, às vezes até uma caneta esferográfica vagabunda acaba proporcionando um traço único, e é nessas horas que hoje o computador ajuda, no tratamento, acabamento, e é aqui onde a confusão toda fica maior e mais interessante!

Eu vejo a integração na arte hoje, assim como em outros processos, como algo inevitável e que engrandece o processo: você tem uma gama de possibilidades muito grande, muitas maneiras de fazer uma mesma coisa e muita referência disponível. E que bom que é assim! Penso que só temos a ganhar.

3) A oportunidade de uma parceria com o amigo colorista, Márcio Raupp, vinha sendo pensada há muito tempo?

Na verdade, a parceria com o Nenê (como eu chamo o Márcio Raupp, meu xará no nome e quase no sobrenome) é uma parceria que vem dos anos 90, mas que não tinha a ver necessariamente com HQ. Quadrinhos para a gente era uma diversão comum, a galera colecionava revistas, e eu fazia os meus desenhos e as minhas histórias, mas não imaginava que fosse um dia trabalhar com ele. Mas daí os anos passaram, e o Nenê começou a trabalhar com isso, e um dia ele roubou um desenho meu e coloriu! Daí quando eu vi o resultado disse: “Vou fazer um desenho legal para tu colorir!” (porque aquele era um desenho menos “sério”, na realidade). E nisso se passaram muitos anos, até que um dia mandei um desenho sério pro Nenê e ele coloriu de um jeito que me agrada por demais em tudo na vida: de um jeito que agrega.

Explico: o Nenê não é um cara que vai lá e colore, ele agrega. Se esmera nos detalhes, opina, pede opinião, permite opinião, trabalha pelo resultado, e eu também sou muito assim, então decidi que, se fizesse um trabalho sério em HQ, a cor seria com ele. Não precisei convidar o Nenê duas vezes para DQD! Ele já tinha umas páginas minhas em que estava fazendo um laboratório, e quando foi para fazer algo “sério” a estrada já estava pavimentada. DQD! ainda teve pequenas fugas na cor, no padrão, mas o Nenê já está terminando um novo projeto desenhado por mim (no qual também escrevo) em que as cores vão estar dentro do que temos como ideia de um padrão estético da coisa.

4) O selo PanDaMo Comics pode vir a ser utilizado por outros artistas brasileiros, chegando futuramente a criar um coletivo, como o Quarto Mundo?

Com certeza que sim, que o selo que criamos aqui pode ser utilizado por outros artistas para a divulgação de seus trabalhos e como forma de intercâmbio, para que nós do PanDaMo possamos conhecer outros artistas, projetos, e eles os nossos. Quanto a virar um coletivo como o Quarto Mundo? Isso ainda não sei. Projetos assim carecem de mais tempo, nosso selo ainda é novo, mas pode se tornar com o tempo um canal importante para a divulgação de muita gente, e se for isso para nós já terá valido muito. Temos consciência de que nosso trabalho serve para nós e também para os outros, e que um espaço conquistado pela gente também é um espaço de alguém que venha no nosso rastro. Sabe-se lá que contribuição possa dar para a arte e para as HQs um alguém que, ainda nem sabe, mas um dia vai entrar em contato com nosso selo, divulgar um desenho simples e mudar todo o rumo?

Se nosso selo for uma porta – inclusive também para além de nós – terá cumprido um ótimo papel! O tempo vai dizer.

5) O Rio Grande do Sul tem uma forte tradição de desenhistas e cartunistas, com nomes expressivos como Renato Canini, Edgar Vasques, Santiago, Iotti, Rafael Grampá e Rafael Albuquerque. Essa tradição de bons artistas intimida ou, pelo contrário, serve de estímulo para mostrar que a gurizada que está começando agora também merece o seu quinhão?

Acredito que essa tradição de bons artistas aqui do sul não intimida, não. Acredito que isso é um estímulo para qualquer um que está começando, ver que estes artistas que são daqui e que tem grandes trabalhos acontecendo, faz com que nós, que estamos chegando agora, possamos acreditar no potencial que temos e nos colocar atrás do nosso espaço.

Eu, particularmente, fico bastante feliz quando vejo trabalhos legais, como o do pessoal citado, tendo visibilidade. Opessoal podendo expressar suas ideias, seus jeitos peculiares de ver o mundo através das HQs, inclusive até em nível internacional. Acho que todo mundo que está começando acaba sendo influenciado e “turbinado” pelo reconhecimento do trabalho destes caras que são aqui do Sul. A possibilidade de fazer parte disso tudo e ajudar a escrever capítulos nessa estrada só tornam o desafio ainda mais tentador, e esse horizonte e esse respaldo histórico só fazem mesmo ver que as noites em cima de uma folha de papel em branco ou atrás de um ideia valem mesmo muito a pena!

Entrevista realizada, por e-mail, no dia 15/01/2010.



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