[Entrevista] João Henrique Lopes

João Henrique Lopes é um jovem artista plástico paraense que produz e pesquisa sobre mangá e é autor do aclamado livro teórico Elementos do Estilo Mangá.

Aqui, bati um papo com ele sobre alguns pontos enfocados no livro citado.

1) João, por que você sentiu necessidade de escrever um livro sobre os elementos do mangá?

Não foi bem uma necessidade que eu senti, apenas, temos que escrever um TCC para nos formar em Artes. E já que eu tinha que escrever alguma coisa, resolvi caprichar. Mangá é o que eu sempre gostei e pratiquei, então eu já sabia que meu tema seria esse. Então li tudo que já haviam publicado sobre mangá e me perguntei o que eu podia acrescentar.

Eu vi que mesmo conhecendo a história do mangá, e tendo muitos manuais de mangá à disposição, quase ninguém fora do Japão fazia um desenho que eu considerasse um verdadeiro mangá. Então tinha alguma coisa que os ocidentais não estavam captando, que era a essência do estilo.

Então eu me propus a encontrar essa essência, e explicá-la às pessoas. A gente pode pensar que a essência do mangá são os olhos grandes; o Donald tem olhos grandes e não é mangá; muitos personagens de mangá tem olhos pequenos e são mangá mesmo assim. Então a essência do mangá não são os olhos grandes. Eu fui meditando assim, estudando, até que cheguei aos três princípios do estilo mangá: Espontaneidade, Simplicidade e Notan.

Esses três princípios podem explicar quase todos os detalhes e técnicas que vemos nos mais diversos mangás. Eles são a essência. Então eu quis que as pessoas conhecessem isso.

2) Quais os erros mais comuns cometidos por desenhistas ocidentais ao desenhar mangá?

O erro mais comum está no material, o uso de canetas em vez de penas. Eu aconselho todo praticante de mangá a comprar uma pena japonesa pela internet.

Pode parecer um detalhe bobo, mas faz muita diferença. Os maiores mangakas usam pena até hoje, mesmo com todos os incovenientes de ter que molhá-la no pote de nankim constantemente e lavar após o uso. Se eles não recorrem às canetas, que são bem mais práticas, deve haver algum motivo forte.

Independente do material, um erro comum é deixar a página muito confusa, cheia de traços desnecessários.

3) Entre os brasileiros, há algum desenhista que conseguiu assimilar bem a essência do mangá?

Posso citar a Érica Awano e a Denise Akemi.

4) No livro, você tece críticas a Frédéric Boilet e a sua nouvelle manga. Ele seria apenas mais um a pegar carona no apelo do mangá apenas pra vender suas graphic novels?

Eu diria que ele não se aproveitou do apelo do mangá, mas apenas do apelo da palavra mangá. As HQs dele não tem nada a ver com mangá.

E eu não acho errado pegar carona no apelo do mangá para agradar as pessoas e vender sua obra. Mas já que é pra copiar, vamos copiar direito. O mangá tem muitas lições valiosas, tanto no estilo de desenho quanto na narrativa, e um artista deve estar atento a essas coisas.

5) Você vê o mangá não como uma mídia em si, mas como um estilo, no qual a espontaneidade é a principal característica, e a utilização de programas de PC não é bem-vinda porque artificializaria a obra. Se a gente expandir esse conceito para a animação, os animes que utilizam computação gráfica (como por exemplo o novo Cavaleiros do Zodíaco, Saint Seya, a ser lançado esse ano) perdem um pouco da sua identidade?

Depende do uso dos computadores. Há muito tempo os desenhos são pintados no computador, quando antes eram pintados à mão. Mas como as cores já eram chapadas, não havia muito espaço para o artista aparecer, então a mudança para o computador não fez muita diferença. Mas os cenários ainda são pintados à mão, porque nessa área a pintura digital ainda não superou os pincéis.

Quanto a modelar todo o personagem em computador, aí vira animação 3D, que tem evoluído muito, e que é bem diferente da 2D. Se virar 3D, perde a identidade como anime para ganhar uma identidade como animação 3D.

Alguns animes misturam algumas cenas com 3D (nos cenários e alguns objetos). Quando isso é feito de modo sutil, aqui e ali, a obra não perde a identidade como anime. O Studio Ghibli faz isso, Cowboy Bebop também, e as pessoas nem percebem a variação das técnicas, porque é um uso discreto, em cenas que seriam muito difíceis de fazer em 2D.

Entrevista realizada, por e-mail, no dia 15 de março de 2011.

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4 respostas a [Entrevista] João Henrique Lopes

  1. João Maria Pinheiro disse:

    Estive na Feira Pan-Amazônica do Livro em Agosto de 2010 e comprei o livro Elementos do Estilo Mangá, que estava sendo lançado por lá. Gostei muito do livro e ja li diversas resenhas sobre o mesmo em sites que tratam de quadrinhos. Gostaria de saber porque este livro, que achei bem completinho e inovador sobre o tema mangá, não esta concorrendo ao troféu HQ Mix de livros e revistas publicados em 2010.
    João Pinheiro
    Vitória,17/03/2011

    • Oi, João!

      O livro do seu xará é realmente tudo o que você falou. Vamos fazer mais barulho pra ver se o pessoal do HQ Mix acorda e lista o livro Elementos do Estilo Mangá.

      Eu sou votante do HQ Mix e quero muito poder votar no livro do João Henrique como livro teórico.

      • João Maria Pinheiro disse:

        É isso aí.
        Temos que estimular o aparecimento de novos talentos nos quadrinhos do Brasil.
        Assim no futuro teremos vários Ziraldos e Mauricios de Souza enriquecendo nossa arte em quadrinhos como hoje
        a Itália, França e EUA têm.
        João Pinheiro

  2. HQ mix tem que dar premiação para que faz quadrinhos.

    Roteiristas
    Desenhistas
    Arte finalistas (Não ganham)
    Coloristas (Não ganham)
    Letristas. (Não ganham)

    Alguém ai, já viu darem o prêmio Nobel para revistas como a super interessante, que apenas escrevem materias sobre a ciência?

    Por que os profissionais acima citados não ganham HQ Mix ,mas o melhor jornaleiro ganha?

    Alguém sabe explicar?

    É o mesmo que vcs estão pedindo.

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