[Entrevista] Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho

Os amigos Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho compartilham a gana de fazer quadrinhos e, ano passado, tocaram um projeto de webcomic chamado Quadrinhos Rasos, onde eles se propunham a criar HQs a partir de letras de músicas. O projeto evoluiu e eles aproveitaram para tocar um outro projeto paralelo, a graphic novel Achados e Perdidos, optando por trilhar o caminho inverso; a partir dos capítulos prontos, o músico Bruno Ito foi compondo uma trilha sonora original.

Conheçam um pouco mais sobre o trabalho deles e, se possível, ajudem a viabilizar a publicação impressa de Achados e Perdidos.

1) Como surgiu a ideia de usar o cancioneiro popular nacional e internacional como mote para a produção de histórias em quadrinhos?

Eduardo: Foi um processo longo e meticuloso de pesquisa. Passamos anos pensando como atingir as pessoas da melhor forma e por fim estávamos entre fazer quadrinhos a partir de slogans de achocolatados e quadrinhos a partir de músicas… tá, é mentira. Queríamos muito fazer quadrinhos, muito mesmo porque a gente falava muito nisso, mas não produzia. Aí decidimos fazer quadrinhos regularmente. Eu falei algo do tipo, “a gente faz um blog e posta as coisas lá toda semana, ia ser legal ter um mote pra fazer essas páginas.” O Felipe disse “tipo quadrinho a partir de música?” e foi isso.

Felipe: A ideia surgiu por acaso. Eu e o Damasceno nos reuníamos semanalmente desde 2007, aproximadamente, para conversar sobre quadrinhos. Um dia decidimos parar de falar, e fazer alguma coisa para valer. Cada um ia fazer uma página por semana. Esse era o combinado. Porém, surgiu a dúvida, fazer página de quê? E nós começamos a tentar decidir um tema, um eixo norteador. Eu lembro de ter falado, “e se a gente fizesse em cima de letra de música?”. Logo em seguida, o Damasceno respondeu “Música? Tipo, Mila, do Netinho?”. E foi isso. A primeira página do quadrinhos rasos foi feita pelo Damasceno, em cima de Mila, do Netinho. E é até hoje uma das minhas favoritas. Algo que é importante mencionar, é que nem eu, nem o Damasceno, entendemos muito de música. Alias, não entendemos quase nada. Gostamos muito de música, e só.

2) Algum músico já reclamou ou parabenizou a “interpretação” que vocês deram à composição dele?

Eduardo: Ainda bem não tivemos nenhuma reclamação!!! Usamos o texto da música e nunca pensamos em “fazer pouco caso” dela ou algo do tipo, de jeito nenhum. E tentamos ser muito atenciosos com todo mundo. Os músicos não costumam se manifestar muito. A gente até faz campanha pra isso! Por enquanto, o Roger do Ultraje a Rigor, o Thedy Corrêa do Nenhum de Nós e a Pitty foram muito simpáticos comentando as páginas do site com músicas deles – via twitter. A Pitty já mora nos nossos corações porque ela mandou RT pra gente duas vezes, uma de livre e espontânea vontade e a segunda graças à campanha “Pitty dá um retuíte” pra ajudar o Achados e Perdidos. Mas a gente adora todo tipo de feedback, dos artistas, das pessoas que visitam, de todo mundo.

Felipe: Alguns músicos já leram e mencionaram gostar. A cantora Pitty é uma das que me vem a cabeça, eu lembro que na época ela mencionou ter lido o site inteiro, e que havia se divertido. O Roger do Ultrage a Rigor, e o Thedy do Nenhum de Nós foram outros que mostraram gostar. Quanto a não gostar, ainda não ocorreu – ou melhor, não chegou até a gente nenhum caso.

3)  É bacana ver como vocês incorporam uma porção de técnicas de desenho e pintura, semanalmente, em cada história, ou seja, com pouco tempo para planejar algo mais rebuscado. Vocês encaram isso como um desafio ou uma séria brincadeira?

Eduardo: Uso as páginas do rasos pra sempre exercitar técnicas diferentes, pra manter a coisa divertida também. Gosto muito de usar materiais tradicionais, mas também me divirto muito desenhando digitalmente. Mas pro Rasos, faço a maior parte de forma tradicional, pra poder brincar um pouco com aquarela, nanquim e tudo mais. Acredito que é um desafio, que é uma brincadeira e que é sério no sentido de sermos muito cuidadosos com o que fazemos e sempre tentamos ser bem responsáveis em relação a nossos compromissos com todo mundo que vem ler o que tem de novo no site a cada semana.

Felipe: As duas coisas não se excluem. É um desafio e uma brincadeira. É extremamente divertido fazer as páginas, e se algum dia deixar de ser, eu deixo de fazer. Porém, é claro que tentamos fazer o melhor possível. O Damasceno faz suas páginas no papel e finaliza digitalmente. Como ele é ilustrador a quase uma década, decidiu dar um tempo no desenho digital para experimentar outras possibilidades. Eu, pelo contrário, estava parado com desenho fazia tempo, e o Quadrinhos Rasos me fez voltar à ativa. Eu faço praticamente todas as páginas digitalmente, pois é um meio que tive contato a cerca de dois anos, só. Ainda tem muito para aprender.

4) O Quadrinhos Rasos está deixando de ser tão somente um projeto de webcomic para se tornar um selo de arte sequencial. A partir de que momento vocês sentiram segurança para dar esse passo?

Eduardo: Enquanto for divertido vamos continuar fazendo as páginas de Quadrinhos Rasos, pode ter certeza. O que aconteceu esse ano é que vimos que as pessoas realmente estavam vindo ver o que estávamos fazendo e isso foi muito legal. Fazemos projetos de quadrinho desde 2007 mas esse ano uma série de fatores nos deu confiança pra realizar o Achados e Perdidos – a resposta das pessoas ao que estamos fazendo, o convite para expormos no FIQ e o próprio acontecimento do festival fez com que decidíssemos que era uma boa hora para isso. Acredito também que vivemos um momento muito especial para os quadrinhos em todo lugar, mas estamos vendo os resultados diretos disso aqui em Belo Horizonte, conhecemos muita gente competente e principalmente, disposta a produzir e consistente em relação a isso. Estamos em uma época e em um ambiente muito favorável pra isso tudo. Quanto a se tornar um selo, é que queremos publicar nossos trabalhos através de uma plataforma que represente bem o que acreditamos em relação à produção de entretenimento e o Quadrinhos Rasos vem sendo esse representante.

Felipe: Os leitores. É tudo graças a resposta dos leitores. Nós, quando começamos, não tínhamos ideia do tamanho que o site ia ter. Era uma coisa só para manter a cabeça pensando e a mão desenhando. Originalmente só nossos amigos comentavam no site. Mas pessoas que não conhecíamos começaram a aparecer, falar que era legal. Foi essa reação que deu a coragem de dar um passo a mais. “Nós conseguimos fazer quadrinhos, tem pessoas que gostam, então vamos fazer mais”, foi o que pensamos.
A ideia do selo, porém, envolve outras coisas. Tem uma série de ideais que eu e o Damasceno compartilhamos, e esse selo representa a nossa maneira de produzir quadrinhos. Não que o nosso jeito é melhor, ou mais correto, é só o nosso jeito. E a gente gosta dele.

5) Achados e Perdidos é a primeira graphic novel nacional a procurar o financiamento colaborativo (crowdfunding) para viabilizar sua publicação. Vocês acreditam que essa nova forma de financiamento é uma espécie de renovação do conceito “do it yourself”, fazendo com que os artistas não dependam tanto das editoras ou dos editais públicos?

Eduardo: Antes de lançar pesquisamos se outros já haviam se aventurado nisso e vimos que não éramos necessariamente os primeiros, mas estamos aí, entre os primeiros talvez. A principal razão de acreditarmos tanto nessa forma de financiamento é que ela é muito de acordo com o que a gente acredita em relação à produção de entretenimento. A ideia de as pessoas que querem ver o livro pronto bancarem a produção dele é sensacional. Não vejo tanto como renovação, ou algo do tipo porque ainda acho tanto as editoras quanto os editais formas interessantes, consolidadas e bem estruturadas de se viabilizar projetos. Mas pra gente, nesse momento, o crowndfunding se encaixou perfeitamente no que estávamos querendo e na forma como produzimos. Espero sim que com o tempo e à medida que mais projetos forem acontecendo assim se torne mais um plataforma de publicação. Não tenho nenhum tipo de ranço com o sistema de publicações por editoras ou coisa do tipo. Nós somos dois, e ambos extremamente exigentes com o nosso trabalho, com o de cada um e com o do outro. Tentamos fazer o melhor que podemos sendo nossos próprios editores. O próprio Achados e Perdidos teve um capítulo inteiro jogado fora, já com algumas páginas desenhadas, porque não gostamos do que estávamos fazendo. E isso é bem comum, que refaçamos as coisas e que mudemos algo porque não estamos satisfeitos. Não gosto da suposição de que essa “independência” signifique fazer só do nosso jeito, só pra gente, sem se importar com nada. Não acho o meu jeito melhor do que outros jeitos e por isso mesmo sou viciado em processos de produção, vejo tudo a que tenho acesso, gosto de saber como as coisas se tornam coisas e prefiro assumir nosso trabalho como uma tremenda (e prazerosa) responsabilidade. Para que possamos continuar fazendo isso e sermos cada vez mais consistentes no nosso trabalho.

Felipe
: A primeira eu não posso falar com certeza. Mas uma das primeiras, provavelmente. Não é uma questão de independência, mas de outra forma de dependência. O financiamento colaborativo tem uma característica fenomenal que é nos colocar em contato direto com o leitor. Ele compra o que ele quer ler, e o projeto só existe se tiver leitores o bastante que queiram que ele exista. Então, mais do que nunca, somos dependentes. Dependentes de todas as pessoas que podem fazer esse projeto acontecer. Mas o corwdfunding ainda tem muito a crescer no Brasil. É uma plataforma de financiamento sensacional, e que vem dado diversos frutos. Não vejo como uma forma dos artistas se distanciarem das editoras ou dos editais, mas é uma terceira possibilidade de que surjam mais quadrinhos. E isso é sempre bom.

Entrevista realizada, por e-mail, no dia 16 de setembro de 2011.


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Uma resposta a [Entrevista] Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho

  1. Olha no início dos anos 80; o Mozart Couto já tinha feito uma HQ de 3 páginas com a letra de
    666 da banda Iron Maiden. Me pergunto quantos anos ele demorou prá pesquisar e ter este insight
    genial. Nos anos 80 hein. Nem tinha internet.

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