Muitos casais vivenciaram (ou ainda vivenciam) o pesadelo de ver a coleção de quadrinhos de um dos cônjuges ameaçar a relação. Eu acompanhei de perto o sofrimento de alguns colecionadores, clientes da GHQ, em sua maioria homens, que não sabiam mais como proceder para que suas esposas/namoradas entendessem que o amor pelos heróis de papel não podia ser encarado como um rival, levando ao ultimato: “ou eles ou eu”.
Tinha cliente que comprava quadrinhos escondido, procurando não gastar muito, pra esposa não desconfiar. Outro estava recomeçando a coleção, pois no processo de divórcio, a companheira havia feito uma “generosa” doação de todos os seus quadrinhos. E vez por outra aparecia alguém querendo me vender sua coleção, pois estava prestes a casar e as HQs não podiam fazer parte da decoração da casa nova.
Confesso que era duro ouvir aqueles depoimentos. Como leitora e colecionadora de quadrinhos de longa data, não queria estar na pele deles, e até me ofereci algumas vezes pra conversar com a(s) respectiva(s) caras-metades e fazê-las ver que aquele ciúme não tinha motivo. Se bem que em alguns casos era uma questão emotivo-financeira, do tipo, “ao invés dele comprar essas revistinhas, poderia me dar mais presentes ou ajudar nas despesas da casa”. Aí era mais complicado.
Em contrapartida, era bacana quando o casal gostava de HQs e cada um comprava as suas preferidas ou fazia compra para uma leitura compartilhada. Nesses casos, geralmente era o namorado quem influenciava a namorada a ler, e ela ia perdendo o preconceito e selecionando os autores e títulos que mais lhe agradavam. Para citar um exemplo de casal bacana que compartilha o gosto pelos quadrinhos (e que está ilustrando a crônica com suas fotos), temos a ilustradora Ila Fox e o engenheiro de software do Google Ricbit. Ila e Ricbit não foram meus clientes, mas são amigos que fiz nas minhas viagens a eventos nacionais de HQs.
E em ocasiões mais raras (como descobri esse ano com a Aliny e o Paolo, um simpático casal de arquitetos potiguares), a esposa comprava quadrinhos e os apresentava ao companheiro, que ia tomando gosto pela arte sequencial.
E ainda mais raro é a esposa dar forças ao marido para investir com tudo na carreira de quadrinista, embarcando no sonho e fazendo-o se tornar uma realidade, como o fizeram as companheiras de Daniel Brandão, Wendell Cavalcanti e do nosso colaborador Giorgio Cappelli.
A maioria dos colecionadores de quadrinhos é nerd/geek, são caras cuja única diversão é ler, jogar videogame e/ou RPG e passar algumas horas na frente do PC. Ler e colecionar HQs é um hobbie como qualquer outro (embora para alguns seja um investimento também), e não atrapalha os relacionamentos amorosos. A mulher que se sentir insegura quanto a isso é porque não tem confiança na própria relação com o parceiro ou sofre de carência aguda, querendo centralizar toda a atenção pra si.
O mais prudente a fazer é estabelecer momentos para que o casal entre em harmonia um com o outro, mas que também sejam plenos em seus momentos de solidão ou na companhia dos(as) amigos(as). A palavra-chave é respeito.
Encerro o texto com a sabedoria de um casal amigo, que definiu o fim de semana assim: no sábado, ele a acompanha em todas as atividades do dia; e no domingo é a vez dela o acompanhar, até mesmo se for pra passar o dia inteiro numa campanha de RPG. E está dando certo.














Ótimo post Milena!
Eu respeito a coleção do Ricbit pq além de eu também curtir, sei que isso vem antes de eu surgir na vida dele, hehe. Já até me acostumei com a ideia de que teremos que comprar um apartamento com um comodo a mais só por causa dos livros e gibis dele (mas não quero nem ver o trabalhão que vai ser deslocar tuuudo na mudança, aiaiai!)
Para a mulherada que não respeita a coleção nerd do marido, só digo uma coisa: prestem atenção na coleção de bolsas e sapatos que muito provavelmente elas tem! cada um com seu hobby.
Isso, Ila! Obrigar o outro a desistir de algo que gosta desde a infância é cruel e não é prova de amor (ele vai comprar e ler escondido, tenham certeza).
Oi, MIlena, matéria genial! Depois que a Ila Fox comentou, me veio à mente o caso do Nicolas Cage que, ao se casar com a filha do Elvis Presley, foi obrigado a se desfazer da sua coleção de HQs, vindo a se arrepender publicamente do fato. Ainda mais depois que se separou dela. Inclusive na coleção do Cage havia o número um do Homem Aranha, que valia um milhão de dólares!!!!!!!
Bem lembrado, Giorgio! Essa do Nicolas Cage foi horrível. E a HQ mais valiosa que ele tinha era a Action Comics # 1, com a 1ª história do Superman.
Tomara que ele aprenda a lição e nunca mais se envolva com mulheres egoístas,e também tenha conseguido recuperar. Dinheiro pra isso tem, falta arranjar quem tenha os exemplares e queira vendê-los.
ótima materia Milena, e só para ilustrar quando fui casar disse a minha companheira que tinha uma amante ciumenta e que ela teria de conviver com esta; é claro que ela ficou espantada e disse ” como uma amante” no momento seguinte mostrei meu quarto e duas estantes cheias de quadrinhos de todos os tipos – ela trnaquilizou-se em seguida e dizze “ah se esta é sua amante tudo bem, desde que eu faça parte de sua vida” e nos casamos e tudo corre bem. Concordo que Hqs não acabam casamentos de ninguém a falta de confiança e dialógo são mais corrosivos para uma relação do que todos os quadrinhos do mundo.
Você é o leitor mais assíduo do PortalGHQ, Renato. Estou gostando de ver. Vou até lhe dar uma das HQs que deixei de sortear na FLiQ. E gostei da sua estratégia de “choque” ao apresentar sua coleção à esposa.
“A mulher que se sentir insegura quanto a isso é porque não tem confiança na própria relação com o parceiro ou sofre de carência aguda, querendo centralizar toda a atenção pra si.”
Essa frase resume todo espírito do texto.
Sinto-me abençoado por ter encontrado uma mulher que me apoia em meus sonhos, apesar de não curtir tanto os quadrinhos como eu (assistimos TODOS os filmes da Marvel, embora ela tenha folheado poucas histórias de super heróis). Herdei do meu falecido pai o amor pela nona arte. Já minha mãe DETESTAVA quadrinhos. Nesse caso específico, era porque meu pai vivia dizendo que não tinha dinheiro para o que ela precisava. Instantes depois, lá vinha ele com uma reedição do Flash Gordon ou uma coleção do X-9 importada da Itália. Que mulher não se irritaria com isso? No caso do meu pai, faltou senso de prioridade e jogo de cintura para explicar à minha mãe por que ele curtia tanto aquilo. Quem sabe ela até entendesse.
Meu pai morreu fazendo fanzines de seu herói Ércio Rocha, sem ter tido o gosto de vê-lo em bancas de jornais ou livrarias, quando poderia ter tido o incentivo da minha mãe numa carreira de quadrinhista. Um pouquinho mais de diálogo e paciência entre aqueles dois teimosos teriam feito uma enorme diferença.
Quando envolve a questão de ajudar a despesas da casa é complicado. Teve um colecionador das antigas daqui de Natal que, quando faleceu, tanto a esposa quanto o filho queriam até fazer uma fogueira com as HQs. Aí vira uma questão de “birra” dos dois lados. O negócio é sentar a conversar mesmo. E esses fanzines feitos pelo seu pai, você ainda os tem?
Oi, Milena. Tenho sim, estão guardadinhos aqui em casa.
fanzines são as coisas mais queridas e experimentais que fazemos e isto não tem preço George parabéns!