[Quadrinhando] Delinquentes Mirins

Com um projeto gráfico simples, mas bem elaborado, Iscola… o crime (104 páginas, P&B, R$ 18,00) remete aos cadernos de infância de uma escola perdida no tempo, quando a referida instituição era um local calmo, onde estudantes iam para aprender com os professores e interagir com os amigos.

Essa descontextualização da realidade que emoldura a edição é, por si só, uma provocação indiciática ao conteúdo das tiras, protagonizadas por uma turminha de cinco estudantes delinquentes (três meninos e duas meninas, sendo uma delas representada com a clássica tarja preta sobre os olhos). Tudo reforçado por uma seleção de manchetes de jornais do Rio de Janeiro e Porto Alegre, entre 2007 e 2011, sobre alunos que agrediram e assassinaram professores e colegas dentro de escolas e universidades brasileiras.

Rose Araújo, que também é professora da rede pública de ensino, optou por mostrar a indignação com a realidade de seu cotidiano, por meio do riso. E o riso, além de libertador, promove reflexão e questionamentos.

Nas tiras, a autora retrata as crianças como pequenos meliantes, armados com bomba, banana de dinamite, granada, garrafa de vidro quebrada e até pistola, que se vangloriam por matar aula e não saber escrever corretamente. O prazer deles é atormentar a “sofressora”, e o recreio é o momento mágico, pois ganham a liberdade da “cela de aula”.

Há críticas ao descaso da família, à sexualidade precoce, à inversão de valores, à falta de respeito com o próximo, à indisciplina, ao consumo de drogas na escola, e ao total descompromisso com o conhecimento.

Mas tudo isso é feito com uma doce ironia, em tom de desabafo, como é nítido no traço caricatural e nas piadas clichês (intercaladas com outras bastante criativas), que provocam um riso agridoce em quem teve a chance de vivenciar uma escola mais humana.

A edição conta com material extra, como o “especial” Proibidão, no qual Rose revela 12 tiras, feitas em 2006, que preconizavam a terrível chacina ocorrida em 2011, no Colégio Tasso da Silveira, no bairro do Realengo, no Rio de Janeiro; desenhos, textos e contas de seus alunos e até um manual de como fazer uma “gaivota” (um aviãozinho de papel).

Leitura mais do que recomendada para pais, mestres e alunos das escolas de ontem e de hoje.

(Resenha publicada no Universo HQ)

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