Como o ponto-de-vista estético lhe entorpece

Quando alguém não entende uma piada, de quem é a culpa? De quem a contou de forma canhestra ou do ouvinte desatento? Cada um dará a sua justificativa para apontar a falha do outro. Mas quando alguém vê uma história em quadrinhos e julga a narrativa, preconceituosamente, apenas pelo viés estético agrupado à mesma, quem tem culpa? O criador da história, o desenhista ou o leitor? Essa pergunta há muito tempo instigou os meus neurônios, principalmente quando eu tratava pessoalmente com diversos leitores de quadrinhos, todo dia, na loja física da Garagem Hermética Quadrinhos (GHQ).

A arte sequencial é a união entre texto e imagens, não a supremacia de um sobre o outro. Há narrativas somente de caráter visual, mas que precisam ter um roteiro bem amarrado (atrelado a um desenhista habilidoso) para que sejam entendidas sem a necessidade de palavras – como já citei em um texto anterior, a parceria entre Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo. Porém, há uma porção de colecionadores que se prendem de forma tão patética à plasticidade das histórias em quadrinhos que realmente dá pena. Conheço alguns que nunca leram Mutarelli, alegando que o traço dele é horrível, por exemplo. Já outros comparam os quadrinhos ao cinema, afirmando que são imagens antes de qualquer coisa, e que se a imagem não lhes atrair, nem querem saber do “resto”. Ora, pois, um filme esteticamente belo, com produção caprichada e rostinhos bonitos em cena, nunca foi sinônimo de qualidade.

A história é o que fica. Sempre. Por mais memória fotográfica que alguém tenha, a imagem está atrelada à narrativa: no momento em que a imagem vem à mente, o enredo é lembrado. O mestre Will Eisner escreveu com muita propriedade sobre isso. Às vezes um argumento bastante simplório, da forma como é narrado e desenhado, transforma-se em algo sublime. Quem leu Cadernos de tipos urbanos ou Nova York (inserido em Nova York – a vida na grande cidade, publicado pela Quadrinhos na Cia.), percebe como Eisner registrou pequenos momentos cotidianos de forma única. Não é só o desenho, é todo o sentimento que o envolve.

Outro erro que muitos cometem é pensar que se precisa contar uma história linear, com começo, meio e fim, para que a mesma seja considerada uma narrativa completa. Podemos ver recortes de determinados momentos da vida de um personagem, sem saber necessariamente o que veio antes e o que virá depois, e essa história ser uma narrativa inteira, como também nos ensinou Eisner. O segredo está na forma como se transmite a história para o leitor.

O grande problema do brasileiro é que a questão estética fala mais alto. O belo salta aos olhos, atrai, seduz. E muitos não conseguem ver além disso. São apenas pessoas que veem quadrinhos, mas não os leem. São semi-analfabetos, sim.

Lastimo essa constatação porque sei que esses apreciadores de imagens nunca terão o prazer de ler Estigmas (de Lorenzo Mattotti e Claudio Piersanti), Reino dos Malditos (de Ian Edginton e D´Israeli) ou Isaac, o pirata (de Christophe Blain).

Texto de Milena Azevedo.

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