Coincidências Associadas

Ao contrário de alguns, acho salutar quando os eventos de quadrinhos convidam artistas que não são amplamente difundidos no Brasil. Minha afirmação tem fundamento e vou provar.

Ano passado, um dos convidados da Rio Comicon foi o francês Patrice Killoffer, um dos fundadores da editora independente L´association. Um ilustre desconhecido das massas. Killoffer, antes de aportar no Rio de Janeiro, passou por João Pessoa, onde autografou a HQ Quando tem que ser, lançada em parceria entre a editora Marca de Fantasia e a Aliança Francesa de João Pessoa. No Rio, a editora Leya/Barba Negra também havia lançado um belo álbum, o 676 Aparições de Killoffer, que também teve sessão de autógrafos com o artista.

Quem teve oportunidade de ir ao lançamento de um desses dois álbuns do Killoffer, conheceu um cara totalmente alto astral e brincalhão, e, de quebra, o seu trabalho; intimista e experimental. Killoffer, ao zombar de sua vida amorosa, alfineta o gênero da autobiografia. Até então, estávamos acostumados a ler quadrinhos autobiográficos com uma forte carga depressiva, nos quais os artistas expunham as mágoas de suas famílias e/ou amores, mostrando-se como heróis pela superação a um ambiente castrador. Em Killoffer não há maniqueísmo, há simplesmente as coisas da vida, ora ridículas ora tão banais que a identificação é imediata. Há também alguns delírios, com os quais ele passa a bola ao leitor para que este faça suas próprias leituras, delirantes ou não.

Esse ano, outro membro da L´association foi convidado à Rio Comicon e, de novo, veio antes a João Pessoa. Além de uma sessão de autógrafos do álbum Gênesis Apocalípticos + Os inefáveis, Lewis Trondheim participou do seminário “Quadrinhos: reflexão e paixão”, organizado pelo Núcleo de Artes Midiáticas do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPB.  Não pude ir, pois estava na organização da FLiQ, mas o amigo Manassés Filho, da Comic House, me presenteou com o álbum. Surpreendi-me porque ele não estava apenas autografado, mas com sketch personalizado e pintado com aquarela. Só essa delicadeza já fez o álbum ser especial pra mim. Mal sabia eu que ler Trondheim me faria um bem ainda maior.

Em Gênesis Apocalípticos, a primeira parte do álbum do Trondheim, vemos a padronização da página em 16 grids, nas quais o artista faz seis satíricos relatos da criação do mundo, dos seres humanos e seus primeiros questionamentos metafísicos e de como o universo chegará ao fim. A segunda parte, Os inefáveis, também com páginas padronizadas, contam histórias tragicômicas de pessoas, animais e seres extraterrestres, as quais lembram as “tiras de rodapé” de Maakies, do Tony Millionaire. Com um traço bastante simples e optando por, ao invés de utilizar balão ou recordatório, legendar manualmente acima de cada grid, Trondheim faz aquele humor típico dos franceses, inteligente e cruel. Não foi à toa que ele ganhou o cobiçado Grand Prix do Festival de Angoulême, em 2006, e concorreu aos grandes prêmios norte-americanos, como o Harvey, o Ignatz e o Eisner.

Então, voltando à vaca fria, como dizem meus amigos gaúchos, se a Rio Comicon não tivesse convidado o Killoffer e o Trondheim ao Brasil, provavelmente nunca teríamos a chance de ver esses álbuns publicados aqui.

Disseram-me que para um evento atrair público e dar certo é necessário convidar uma estrela, alguém que esteja em ampla projeção no momento. Tudo bem, concordo. No entanto, muitas vezes são os ilustres desconhecidos que terminam nos surpreendendo. Foi assim também com o quadrinista alemão Reinhard Kleist, no FIQ de 2009 (logo em seguida a 8Inverso lançou a magnífica graphic novel Cash – uma biografia), e certeza que esse ano, na sétima edição desse festival que toma BH de assalto, nós conheceremos mais artistas bacanas, que terão suas obras publicadas pela primeira vez em português.

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2 respostas a Coincidências Associadas

  1. Hugo Morais disse:

    Isso é verdade. Acho que o ideal seria trazer um grande nome e atrelado a ele outros com trabalhos bons e mais desconhecidos. Porque muita gente vai por causa dos maiores, aí finda conhecendo outros trabalhos. É a mesma coisa com festivais de música. Trazer um grande e pequenos de qualidade. Mas se o público não tiver interesse, não adianta de nada.

  2. Valeu, Hugo! O bom mesmo é mesclar estrelas + convidados ainda não tão divulgados na mídia. Porém, esses últimos geralmente são os gominhos de côco dentro do pão doce. Tem gente que só se liga na cobertura e não sabe que a massa bem feita guarda a essência do todo.

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