[Cinematógrafo] Executiva, Mãe e Mulher

Os norte-americanos, por mais moderninhos que sejam, são bastante conservadores em relação à família e todas as tradições que a cercam. Para eles, uma mãe deve ser, no mínimo, uma ótima dona-de-casa, gerenciando tudo e todos em prol do bem-estar da prole.

Não é tarefa fácil para as americanas lidar com a pressão de ser competentes administradoras do lar e investir numa sólida carreira profissional, ao mesmo tempo. Em geral, elas optam por fazer uma coisa ou outra (luxo que a maioria das brasileiras, por exemplo, não tem). Quem consegue dar conta do recado nos dois ramos de operação é praticamente uma heroína. Por isso, o cinema e a TV gostam de retratar essas super-mulheres, fazendo com que a sociedade reconheça seus esforços e lhes deem mais valor.

Um desses filmes é o novo Não sei como ela consegue (I Don’t Know How She Does It – 2011), adaptação do romance de Allison Pearson pela roteirista Aline Brosh McKenna (que já havia adaptado O Diabo veste Prada), dirigido por Douglas McGrath (Confidencial, Emma) e estrelado por Sarah Jessica Parker (Sex and the City).

Sarah vive Kate Reddy, uma executiva de finanças bem sucedida, que mal chega de viagem e já precisa partir novamente. Vive fazendo listas para não se esquecer das suas inúmeras obrigações “de mãe e mulher”, cuidando dos dois filhos pequenos e dando atenção ao seu marido Richard (Greg Kinnear). Administrar a vida normal já estava complicado, e tudo fica mais louco ainda quando uma proposta de Kate interessa ao banqueiro Jack Abelhammer (Pierce Brosnan), e eles precisam juntar esforços para vendê-la a grandes empresários.

O cotidiano de Kate é “julgado” por quatro personagens: sua melhor amiga Allison (Christina Hendricks, de Mad Men), seu oportunista colega de trabalho Bunce (Seth Meyers), sua secretária workaholic Momo (Olivia Munn), e sua inimiga, a “dona-de-casa perfeita”, Wendy Best (Busy Philipps).

Apesar de as situações vividas por Kate serem verossímeis e Sarah tentar ser engraçada em todas as cenas (com piadas velhas, que não tem mais tanta graça hoje, diga-se de passagem), o que não convence é o status de “santa” dado à personagem.  Kate é uma mulher que se sacrifica pela família, mesmo tendo que tomar decisões que a afastem dos filhos e do marido, pois tem consciência de que eles são o melhor de sua vida. Porém, não há espaço para um amadurecimento da personagem. Sua reflexão final é totalmente previsível.

A proposta do filme é encorajar mais mulheres a desempenhar a jornada dupla de trabalho, e como reforço para isso, vemos os dois extremos, a dona-de-casa de tempo integral e a trabalhadora “sem coração”, que não são plenamente realizadas. Logo, o que poderia ser visto como uma ode feminista, na verdade camufla interesses da atual economia norte-americana, atrelado ao pensamento conservador estaduniense.

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Uma resposta a [Cinematógrafo] Executiva, Mãe e Mulher

  1. Jota disse:

    As discussões sobre a dupla jornada feminina já estão em outro patamar. A mulher não deve ser encarada neste eixo dona de casa- trabalho, mas sim na perspectiva de direitos e deveres iguais com os dos homens. Quando falamos sobre isso devemos dizer salario igual e divisão de tarefas domesticas iguais para que nem um nem outro sejam super exigidos. São nestes termos que devemos pensar o papel da mulher em nosso tempo.

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