Pela primeira vez tive o privilégio de assistir a um filme estrangeiro com a presença do diretor na sala de projeção (sentado na fila a minha frente), comentando seu trabalho logo após o término da exibição.
O filme em questão foi o longa de animação Chico & Rita (2010), vencedor da categoria no Goya 2011, e primeira experiência com animação do diretor Fernando Trueba, o qual teve première, no Brasil, na 19ª edição do Anima Mundi, no Rio de Janeiro.
Trueba afirmou que a influência maior para a realização de Chico & Rita foi uma conversa que teve com o desenhista Javier Mariscal, na qual o amigo confessou estar triste por nunca ter feito uma animação, uma vez que até o momento ninguém havia lhe apresentado um roteiro que valesse a pena.
Partindo do princípio de só fazer filmes com temas caros a ele, Trueba, um apaixonado por jazz, em especial o Bebop, escreveu o roteiro sobre um pianista e uma cantora que tem sua história de amor marcada por desencontros, ao som de rumba, bolero e, claro, muito jazz, apresentando-o a Mariscal e propondo uma parceria na direção.
A animação começa com Chico, já velho, recordando a primeira vez que viu Rita, em 1948, ano em que a nova sonoridade difundida por Charlie Parker e Dizzy Gillespie chegava a Havana. Chico e o amigo Ramon costumavam sair em peregrinação por diversas casas noturnas e, numa dessas noites, Rita estava no palco, cantando. Chico ficou encantado com o que ouviu e viu, mas Rita nem lhe deu bola. Chico não desistiu e acabou convencendo Rita a sair com ele. Pagando o preço por ser mulherengo (e também ciumento), Chico perde Rita várias vezes; enquanto ele fica em Cuba, ela segue para uma carreira internacional, em Nova Iorque, além de sagrar-se uma estrela, em Hollywood.
Consagrando-se como exímio pianista de jazz, Chico também parte para a América do Norte e Europa, mas mesmo reencontrando-se, ele e Rita nunca conseguiam ficar juntos. No presente, redescoberto por uma jovem cantora, Chico aposta nessa última turnê pelo mundo para rever Rita e retomar o antigo romance.
Chico & Rita tem o charme dos musicais das décadas de 1940 e 1950, principalmente os estrelados por Frank Sinatra, os quais mesclavam romance, comédia, drama e ação, fazendo com que até esqueçamos se tratar de uma animação; isso graças a imersão absoluta proporcionada pela inspirada trilha sonora composta por Bebo Valdés (que assina pela terceira vez a trilha de um filme do Trueba) e o garimpo musical feito pelo Trueba.
A apesar de parecer ter sido feito em rotoscopia, Chico & Rita foi totalmente desenhado à mão (Trueba mencionou ter gravado boa parte das cenas com atores de verdade, mas somente as usou como referência para os desenhistas da equipe, evitando ter que refazê-las por causa de mal-entendidos), e o traço sensual e as cores quentes de Mariscal engrandecem e dão veracidade à história.
O batismo de Trueba no cinema de animação não poderia ter sido melhor. Ele afirmou que ao fazer Chico & Rita descobriu que “determinadas coisas podem ser melhor contadas através da animação”, e já tem outro roteiro em mente, mas avisou que só irá filmá-lo após fazer um live-action, porque o único senão da animação, pra ele, é o tempo que se leva para produzi-la.












