[Cinematógrafo] Apenas um peregrino

Um mundo pós-apocalíptico. Um deserto. Um homem que aparece para fazer a diferença e alterar a vida dos últimos sobreviventes da Terra. A gente já viu dezenas de filmes com essa premissa, desde a trilogia Mad Max ao debut de Luc Besson atrás das câmeras, O último combate, até variações adolescentes, como O menino e seu cachorro (com Don Johnson ainda garoto) e Tank Girl (adaptação da HQ homônima com Lori Petty).

Os Irmãos Hughes (Do Inferno) mostraram a sua versão da Terra pós-apocalíptica com o recente O Livro de Eli (The Book of Eli), trazendo Denzel Washington como um ranger solitário, cuja missão é chegar à Costa Oeste Norte-americana, escoltando o último exemplar da Bíblia até uma espécie embrionária da Biblioteca de Alexandria, situada em Alcatraz.

A caminhada do heroi é repleta de obstáculos, sendo Carnegie (Gary Oldman) o pior deles. Carnegie é o bandidão do pedaço e manda seus homens pilharem transeuntes em busca de todos os livros que puderem encontrar, visando achar justo o livro que Eli guarda a sete chaves.

Ao chegar à cidade na qual Carnegie é a autoridade porque controla uma fonte de água pura, Eli conhece Solara (Mila Kunis, a golpista da comédia Extract), jovem escrava que tem a mãe como amante do mau caráter. Os dois seguem juntos, tipo mestre e discípula, unindo forças para derrotar Carnegie e levar a palavra a todos que a esqueceram.

O Livro de Eli trabalha, de forma maniqueísta, o princípio de que saber é poder, onde Eli tem o saber e pretende disseminá-lo, estendendo o poder da palavra a todos, enquanto Carnegie quer ter acesso exclusivo à palavra, fazendo de todos os homens, seus escravos.

Com fotografia em tons de sépia, os Irmãos Hughes moldaram um thriller de ficção científica que flerta com o faroeste e com o terror, lembrando também a HQ Apenas um Peregrino, de Garth Ennis e Carlos Ezquerra.

O pecado dos Irmãos Hughes foi entender que podiam imitar Sergio Leone e optaram por um corte deveras longo ao filme, causando tédio ao espectador, em algumas passagens, o que é acentuado pelas irregulares reviravoltas da trama.

Os não-cristãos podem se sentir incomodados, da mesma forma, com a insistência de que a fé remove montanhas e confere certos poderes a quem se sacrifica em seu nome.

O Livro de Eli merece uma conferida pela competente atuação de Denzel Washington e seus golpes à lá Zatoichi.

Texto de Milena Azevedo.

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